Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

ROSA GROCHEWISKI LESINIAKOSKI   

 

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Imagem: Fernando Rodrigo Walenga Santos

O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos 

 

Rosa Grochewiski Lesiniakoski

Descendente de poloneses

 

 

            Rosa lembrou de alguns fatos sobre imigração dos seus avós e seus pais. O avô veio da Prússia para o Brasil de navio com seu pai, que tinha 21 anos de idade, e a avó chegou com sua família. A sua mãe veio de Cracóvia com 18 anos de idade. Anos mais tarde, os pais de Rosa se conheceram e casaram.

            A exemplo de outras imigrações, os seus avós também vieram no final do século 19, movidos pela propaganda que foi espalhada na Europa sobre o convite que o Imperador D. Pedro II estava fazendo para que os colonos viessem para o Brasil a fim de colonizar as terras que seriam doadas. Rosa lembra que, para surpresa dos avós, quando chegaram em Curitiba, no Passeio Público, local que foi determinado para os imigrantes se reunirem, o próprio D. Pedro II os aguardava.

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Passeio Público –Inauguração, 1886, Município de Curitiba

“Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimonio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba”, Coleção Julia Wanderley

 

            Foi feito então o registro dos imigrantes que ali estavam, determinando-se os locais de hospedagem das famílias e as terras que iriam receber de acordo com as atividades que cada um iria trabalhar. De um modo geral, todos eram agricultores. Ao seu avô foram dados nove alqueires de terras na Lamenha Grande, o equivalente a três chácaras. Ele ganhou sementes para plantar e ferramentas e foi sozinho para o local, onde construiu uma casa de barro com capim e algumas tabuinhas. Depois, seu pai e sua avó vieram morar com ele.

            Os demais imigrantes também foram colocados na mesma região. Nos primeiros tempos, sobreviviam pela ajuda que uns davam aos outros e, basicamente, pela troca de produtos, até que conseguiram aos poucos vender seus produtos ou cultivos da lavoura na cidade para os brasileiros – a princípio em longas caminhadas; mais tarde, já um pouco mais estruturados, em carroças. As colônias aos poucos foram tomando “ar” de vilas, na medida em que as casas eram construídas e pequenos comércios iam se estabelecendo.

 

Dificuldades com a língua portuguesa

 

            Rosa disse que sua mãe falava o português, não muito, mas falava, pois aprendeu ainda menina – obrigada pelo pai, ela ia da colônia até o Abranches para estudar no Colégio São José. Ele era analfabeto, mas dizia que queria que as filhas aprendessem a falar o português e o polonês. Na escola, a mãe de Rosa aprendeu a fazer também trabalhos manuais como bordado e crochê.

            Apesar de não saber ler, escrever ou fazer contas, o avô de Rosa, além de falar o português e o polonês, também dominava os idiomas alemão, espanhol, italiano. De um modo geral, era muito difícil para os imigrantes falar o português, pois recebiam apenas os jornais da Polônia para ler. Os sogros de Rosa também tinham dificuldade de falar em português, só falavam polonês e morreram sem aprender a língua portuguesa. Os seus filhos só aprenderam na escola polonesa.

            Diante dessa situação, por iniciativa de Ignácio Lipski (1850-1932) e outros imigrantes, foi construída, em 1889, uma pequena casa que serviu de escola¹ no Pacotuba, na Lamenha Grande. No local, as crianças aprendiam o polonês, outros idiomas dos imigrantes e a língua portuguesa – mais tarde, Rosa também frequentou essa escola.

 

¹“...também no Relatório do Superintendente Geral do Ensino Público do Paraná, o Dr. Victor Ferreira do Amaral e Silva elaborado em 01 de novembro de 1894, é acusada a existência de três escolas subvencionadas (particulares) em Tamandaré. Localizadas no Tijuco Preto, Conceição e Pacotuba. Sendo que a escola particular no Pacotuba denunciada no relatório de 01/11/1894 supracitado confunde-se com a própria História de vida do professor Ignácio Lipski. Nascido na Polônia em 04 de março de 1850, chegando ao Brasil em 01 de maio de 1876. Onde ao se estabelecer na Freguesia do Pacotuba, decidiu em 20 de fevereiro de 1889 criar uma escola para atender os filhos dos imigrantes poloneses da região. Esta escola se localizava nas proximidades da atual Rua Dalzira Sila, no Pacotuba. Sabedores deste fato, os moradores da Colônia Lamenha recorreram ao professor Lipski para lecionar a seus filhos. Em 1920, auxiliava o professor Ignácio Lipski, a professora Esther Furquim de Andrade com aulas em português. Este auxílio se dava principalmente no contexto de tradução. Pois naquela época grande parte dos alunos falavam e só entendiam o polonês. Principalmente na região de São Miguel e nas Lamenhas. Por este motivo não raro nas escolas destas regiões, existirem dois professores na sala simultaneamente. Por 41 anos o professor Lipski prestou serviços ao desenvolvimento da educação no município, na data de 24 de maio de 1932 falecia.

Por esta dedicação em ensinar, mesmo em território distante de sua terra natal. O povo do Município lhe agradece com o advento da Lei nº 1.386 de 11 de dezembro de 2008, com o patronato da recém-construída Escola Municipal Professor Ignácio Lipski, localizada na Rua dos Pinheiros, 100, Botiatuba. A qual aglutinou no mesmo prédio a extinta Escola Rural Nossa Senhora das Graças...”.

Antonio Ilson Kotoviski Filho, Relatos de um Tamandareense, História do Município de Almirante Tamandaré, págs. 267/268, 2011.

Pedro Martim Kokuska, Nos Rastros dos Imigrantes \Poloneses,2000.

 

Aprendizado da língua e conflitos de comunicação

 

            Rosa disse que a mãe queria que ela e os irmãos só falassem em polonês em casa e tiveram que aprender na marra. Quando aprenderam a falar, esqueceram o português que já haviam aprendido. Depois, foram para a escola polonesa, na qual era dividido meio período para o estudo da língua polonesa e outro meio período da língua “brasileira”, e reaprenderam a fala a língua local.

            Por um longo tempo, por conviverem com imigrantes de várias etnias, houve conflitos na comunicação da família de Rosa em relação aos brasileiros, pois não conseguiam se fazer entender e muito menos compreender o português, e tampouco as línguas das outras vertentes imigratórias.

            Ela revelou que era confuso, lembrando das conversas dos mais antigos e de situações que passou quando criança antes de aprender a falar o português. Nessa época, ainda existiam problemas de comunicação e o que ajudava muito era o seu pai “atuar” como intérprete, pois falava várias línguas, ainda que com muita dificuldade. Isso facilitava as negociações das vendas dos produtos do cultivo na cidade que fazia junto com sua mãe, que falava muito pouco o português. Elas ajudavam também os demais imigrantes na comunicação.

            Em 1927, com 8 anos de idade, Rosa iniciou os estudos na já citada escola do Pacotuba, na Lamenha Grande. Ela lembrou que o aprendizado da matemática teve apoio fundamental de palitos de fósforos e que a maior dificuldade na comunicação com os brasileiros e outros imigrantes era se fazer entender. Tiveram também o reforço escolar com uma moça no período noturno. Só conseguiu falar normalmente o português de fato aos 12 anos.

 

Preservação da cultura

 

            Rosa ainda fala o idioma polonês com perfeição e até “cantou” algumas canções polonesas, muito alegres, durante a entrevista. Porém, não conseguiu transmitir o idioma para seus filhos. Na sua família, os membros mais jovens também não aprenderam o idioma polonês.

            Ela lembrou do período da formação das colônias do Abranches, Santa Cândida e Orleans e disse que sempre se visitavam – atravessavam riachos e andavam muito, mas tudo era muito divertido. Havia muitos casamentos. Trouxeram o folclore com suas músicas e danças sempre muito alegres e também preservaram suas comemorações religiosas.

            Sobre a alimentação, revelou que consumiam o que plantavam como o centeio, pepino, repolho e outros alimentos que trocavam entre os demais imigrantes. Guardavam sempre a carne na gordura de porco, armazenada em latas; produziam o requeijão e a manteiga, pois tinham uma vaquinha leiteira; faziam muito o pastel cozido, o conhecido Pierogui, e também as conservas de repolho (o chucrute, pepino com endro e folha de parreira), de cebola e outras verduras; e havia também a polenta com leite quente, broas e cuques de farofa e banana.

            Os imigrantes mantiveram seus costumes e aos poucos se ambientaram com o modo de ser dos brasileiros. Rosa lembrou que seu pai vendia pinheirinhos para o Natal – na época, ainda era permitido e todos os irmãos ajudavam nessa tarefa.

            Ela disse que os mais antigos eram felizes. Não sentiam falta da terra natal porque o sofrimento lá era grande e passavam por necessidades. Não havia terras para plantar. Sempre muito animada, Rosa lamentou as perdas de algumas tradições culturais, como as “Festas de Casamento” realizadas entre os imigrantes, que na verdade eram duas festas: uma era o período que antecede o casamento que se tornava um evento; a outra a cerimônia se prolongava até o dia seguinte ou mais.

            Quando havia um casamento, com uma semana de antecedência, as famílias dos noivos, parentes e amigos praticamente se mudavam para a casa da noiva a fim de ajudar na preparação da comida – normalmente galinhada, saladas, bebidas e sobremesas que seriam servidas no almoço e no jantar do dia do casamento, além dos bolos. Rosa disse que faziam em torno de 50 bolos com sabores e decorações variadas, além dos docinhos. Era tudo muito alegre, conversavam e riam muito. Geralmente, as festas eram realizadas nos paióis e celeiros, que eram lindamente decorados com paus de bambus e bandeirinhas coloridas. Paralelo à agitação dos preparativos, estavam em andamento a confecção dos vestidos de seda feitas pelas costureiras das colônias e as roupas das crianças e damas. Os homens se ajeitavam com os alfaiates, em ascensão naquela época.

            Sobre a cerimônia, Rosa contou também que, logo após a celebração na igreja, já se iniciava a festa com a comida e, em seguida, as brincadeiras com os noivos. Lembrou particularmente da “Roda de Mesa”, um arco de madeira decorado com fitas verdes que ficava pendurado no teto acima de uma mesa, no qual todos os jovens dançavam com a noiva ao seu redor, ao som do acordeom e gritavam: “Ela ainda é nossa”. Enquanto isso, o noivo ficava sentado com dois pratos para recolher o dinheiro que era ofertado para o casal. Só depois que a noiva tinha dançado com todos é que ficava com o noivo e sentava no colo dele. Ele então tirava seu véu e a grinalda e dizia: “Agora é minha”. Rosa contou que, na época do casamento dos pais, com o dinheiro arrecadado foi possível comprar uma casa e uma chácara na Campina do Siqueira na época.

           

Sotaque curitibano

 

            Rosa, apesar de dominar muito bem a língua polonesa, compreende e fala perfeitamente o português. Não carrega sotaque estrangeiro e pronuncia os ”erres” de forma correta: não fala “caroça” e sim “carroça”.

            Quanto aos seus filhos, como nasceram, foram criados e estudaram em Curitiba, o “falar” deles é muito curitibano, pois não foram influenciados por outro idioma. Ela e o marido falavam em polonês somente quando não era assunto para os filhos ouvirem.

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Foto de família, 1927, imigrantes poloneses, festa de casamento

(nota-se a antiga casa em madeira ao lado direito)

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