PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

PESQUISA ANTROPOLÓGICA

 

CÉLIO LUIZ PINHEIRO

O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Cultura e Linguagem

Célio Luiz Pinheiro

 

 

                “Quando eu fui pela primeira vez para a Ucrânia, eu fui considerada praticamente um fóssil lingüístico. Apesar de, na minha casa, sempre se falar ucraniano.” Profª Oksana Boruszenko, imigrante ucraniana.

                “O sotaque curitibano, ele pega. O tal do leite quente, ele existe entre todos os imigrantes. E quando eles falam o português, eles falam com o sotaque daqui, de Curitiba... E pega...”

 

            As palavras dessas citações nos enviam de imediato à tarefa a que se propõe esse escrito: apresentar a noção de Cultura a partir de uma perspectiva antropológica. Tarefa gigante dado que esta é justamente a noção mais importante desta ciência que estuda as relações humanas, suas representações, seus simbolismos, suas práticas, suas manifestações, tudo isso constituindo uma intrincada complexidade.

            Entendemos a linguagem e a língua como patrimônios da cultura. Sua existência é histórica e revela as relações entre as pessoas que se utilizam dela. As diferenças entre línguas, as variantes de uma palavra em diferentes populações, mostram que a língua é uma entidade vida, operada nas práticas de vidas de grupos humanos.

            É com pertinência a várias disciplinas que podemos sustentar o estudo de vários fenômenos linguísticos. Uma variação de significados, de entonações e usos podem conduzir à criação de um dialeto ou mesmo de uma nova língua ao longo de um período de tempo em que as transformações vão se tornando independentes e sendo partilhadas por um grupo diferente de pessoas.

          É correto afirmar que as transformações numa língua podem resultar de processos históricos, relacionais, geográficos e que as ‘distorções’ na língua são de ordem relacional, social.

               Nos informa o antropólogo Roy Wagner que o conjunto de convenções mediante às quais certos sons ou grupos de sons são compreendidos como "representando" certas experiências e coisas culturalmente reconhecidas, e mediante às quais esses sons são ordenados e transformados para articular uma expressão significativa – esse corpo de "concordâncias" a que chamamos "linguagem" –, é sempre parte do aspecto coletivo da cultura. Com suas distinções lexicais, gramaticais e retóricas, a linguagem é sempre parte do moral e pertence aos contextos (relativamente) convencionalizados de uma cultura. (p.168)

            Assim, o sotaque, tema de nosso interesse, pode ser analisado a partir dessa base conceitual, ou seja, o sotaque revela um contexto relacional, revela a interação entre grupos humanos, revela a história demarcada num limite de espaço e tempo. Podemos afirmar que o modo particular de o curitibano expressar foneticamente certos grupos de palavras é resultante de um intrincado conjunto de ações humanas. Por essa razão o sotaque é tema de interesse antropológico. Tanto é verdade que ele é tema de interesse histórico, linguístico e geográfico.

            E não esqueçamos que o sotaque tanto quanto a língua está em constante transformação. A própria linguagem está sempre no processo de ser inventada. O sotaque está sempre em transformação mesmo que sensivelmente não tenhamos notícias dessas mudanças. A língua é viva, sempre bombardeada pelos contatos com outras línguas, sempre em trânsito para dar conta de revelar por metáforas os significados humanos. O sotaque está inseparavelmente ligado ao conceito de cultura.

            Para explicar o surgimento dos dialetos, das diferenciações entre palavras que as tornam predominantes e dísticas de uma língua, Roy Wagner expressa assim tal fenômeno: “os encontros com os contextos particulares de fala têm o efeito de objetificá-los e conferir-lhes características altamente específicas. Quando uma determinada palavra, expressão ou elemento gramatical ocorre com frequência em um contexto em detrimento de outros, adquire as associações peculiares daquele contexto, a ponto de perder seu status convencional. Podemos dizer que os elementos linguísticos gerais se tornam dessa maneira "especializados" – eles são "selecionados", consciente ou inconscientemente, para serem usados em certos contextos, de modo que a maior parte de suas associações dotadas de significado acaba por vir desses contextos. Por vezes, essa seleção constitui uma tendência geral entre os falantes de uma língua, e então as palavras, formas gramaticais ou retóricas sofrem uma mudança no que se refere à sua significação linguística global. Em outros casos, a seleção corresponde a preferências e hábitos de um certo contexto social, educacional ou ocupacional particular, ou de alguma classe ou grupo regional, resultando na diferenciação da própria linguagem em "estilos" e dialetos particulares. Em ambos os casos, o processo opera no sentido de particularizar e diferenciar as propriedades coletivas da linguagem por meio dos diversos conteúdos e situações de fala para "des-convencionalizá-los" de uma maneira ou de outra. Palavras individuais, expressões e usos gramaticais são com frequência particularizados a ponto de sua aplicabilidade convencional ver-se gradualmente restringida.” (p. 175)

            É a língua a responsável pela conservação e transmissão de valores entre as pessoas de um grupo e entre suas gerações.

            A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha afirma que “a tradicionalidade de um grupo não se mede, com efeito, pela vigência de sua antiga indumentária, de suas técnicas agrícolas, de suas casas, mas sim no ‘uso’ que ele faz de velhas categorias como princípio organizadores da realidade vivida, por inesperada que ela seja. Para tanto, a conservação da língua parece ser de suma importância, já que ela encerra e expressa o sistema simbólico.” (CUNHA, 1978. p. 5)

            Apesar de a palavra Cultura ser de domínio público e seu uso vulgar poder ser acionado a todo instante para “explicar” de forma sintética uma variedade de fatos sociais, não imaginamos quanto seu uso fácil esconde intrincadas redes complexas que sustentam as vidas humanas em sociedade, bem como suas instituições.

            Convida-se aqui o leitor a adentrar esse interessante mundo a que chamamos Cultura. Este texto tomará por base a Antropologia e alguns de seus expoentes e escolas para a apresentação da Cultura. Roy Wagner, escreve: “A Antropologia estuda o fenômeno do homem – a mente humana, seu corpo, sua evolução, origens, instrumentos, arte ou grupos, não simplesmente em si mesmos, mas como elementos ou aspectos de um padrão geral ou de um todo”. A tudo isso podemos chamar Cultura.

            A etimologia da palavra Cultura nos remeter à ideia de cultivo da terra, cultivar a terra. Cultura do solo. Cultura então seria toda ação humana oriunda da manipulação de técnicas que visam inicialmente a sobrevivência, chegando até a produção das comodidades. Daqui derivam as noções, segundo Roy Wagner, de domesticação e refinamento humano para a vida em coletividade, ideias essas advindas do controle, refinamento e aperfeiçoamento das técnicas agrícolas.

            O significado mais simples desse termo afirma que cultura abrange todas as realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, em outras palavras, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano concreto ou no plano imaterial, desde artefatos e objetos até ideais e crenças.

            As práticas humanas sobre o planeta são em número bastante reduzido e temos necessidades básicas para a manutenção da vida que são idênticas em todos os lugares: alimentação, sono, higiene, sexo são algumas delas. Mas os modos como realizamos essas atividades, a periodicidade e a riqueza ou ausência de detalhes nos modos de execução vão constituir as profundas diferenças entre povos distintos. Assim, em algum lugar no Oriente Médio, uma família fará sua refeição ao meio-dia, com a família reunida, todos sentados em tapetes coloridos, o pai à direita, a mãe à esquerda, comerão com as mãos sem o uso de talheres a comida que está disposta em um único recipiente; enquanto isso, em alguma cidade Ocidental, uma família estará fazendo sua refeição numa mesa, com o uso de pratos individuais, talheres, uma televisão ligada e sem qualquer hierarquia padronizada quanto à disposição das pessoas à mesa. Tanto num lugar quanto em outro, os grupos realizaram a mesma atividade: elas se alimentaram!

            Este mesmo raciocínio vale para as outras atividades humanas. Mas como elas o fizeram, tornaram-nas particulares, excêntricas umas às outras. O que permite a um viajante ficar indignado, surpreso, extasiado, feliz, enojado ou admirado ao observar as práticas diferentes de uma mesma “tarefa” em lugares diferentes. Esse viajante é capaz de olhar para tudo isso e dizer, por exemplo, que comer carne de cachorro “é cultural”. Não sem razão, é claro, porém essa constatação não revela a profundidade da experiência, ela apenas fecha uma questão, sentencia a diferença, mas não a explica. Explicar, descrever de forma mais detalhada, estabelecendo relações históricas, simbólicas, aí sim, estamos definindo o que é Cultura.

            O conceito de Cultura não se aplica ao modo como cada grupo realiza suas tarefas, senão que ela pode se definir pelo contraste! E nos interessa justamente conhecer os grupos humanos a partir das diferenças entre eles. Se todos fizéssemos sempre as mesmas coisas, do mesmo modo, em todos os lugares, não saberíamos o que são diferenças e a palavra Cultura não faria qualquer sentido.

            Portanto, a palavra Cultura abre a indagação, abre o questionamento, inicia a pesquisa, começa o processo de entendimento, dá o passo inicial à explicação dos fenômenos. A Cultura não é uma explicação que se resume na própria palavra Cultura. Dizer que Curitiba é uma cidade limpa porque isso é “cultural”, não explica a razão pela qual Curitiba é uma cidade limpa. O que define a noção de Cultura aqui é o processo histórico e as relações entre as pessoas cujos resultados fizeram com que as pessoas se sentissem constrangidas em jogar o lixo na rua. Então, a Cultura não é dada, não se nasce com ela. Ela é primeiramente constituída, depois constantemente transformada (ainda que se resistam às transformações e que elas ocorram de forma lenta), depois transmitida entre pessoas, gerações e instituições e requer que seja aprendida ou que ela mesma constitua as pessoas.

            A Cultura sempre existe para o Outro. É o outro que me informa que eu tenho uma cultura. Alguém pode me dizer: “você fala com um sotaque carregado”, ao que eu posso retrucar: “não, quem fala estranho é você!” O sotaque só é percebido pelo outro, portanto, quem percebe as diferenças e os contrastes é sempre o outro, e não o eu, mergulhado na própria cultura. Disso já resultaram muitos conflitos, ainda mais se eu pretendo que a minha forma de proceder é a verdadeira. É como dizer que a cultura só existe porque existe o outro, porque existe outra cultura, o que faz com que o conceito mesmo de cultura seja um reflexo desse encontro. Quem fala da cultura, fala do ponto de onde não está. Eu falo do seu sotaque porque não participo dele, por isso, só posso dizer que o sotaque é uma manifestação cultural se eu sou o outro, aquele que percebe. O mesmo vale para os outros estranhamentos. Ao comunicar ao outro que ele tem um sotaque, eu invento para esse outro uma Cultura. Essa é uma ideia do antropólogo Roy Wagner, expressa em importante livro chamado “A Invenção da Cultura”.

            Considero provocativa a ideia de pensar, seguindo Roy Wagner, a cultura como o termo mediador, uma maneira de descrever outros como descreveríamos a nós mesmo, e vice-versa.

            Também é dele uma ideia bem interessante, que diz que para verdadeiramente saber do que se trata em uma cultura não é simplesmente aprender uma nova cultura, é preciso assumi-la de modo a experimentar uma transformação de seu próprio universo. Se não experimento, não posso dizer que conheço! Isso levou muitos antropólogos a viverem muitos anos entre os grupos que estudavam, bem como à necessidade de aprender a falar a língua nativa para compreender como vivem aquelas pessoas.

            Sim, a Cultura constitui os sujeitos. A transmissão cultural se dá através da linguagem em suas mais variadas formas de expressão: falada, escrita, gesticulada, através das crenças, das leis, dos valores familiares.

            Quando no processo de educação de uma criança dizemos “isso pode”, “isso não pode”, “isso é feio”, “isso não se deve fazer”, estamos construindo um sujeito através da linguagem, fazendo com que a língua seja o constituinte das noções morais de um determinado grupo. O vínculo entre Cultura e Linguagem é profundo, inseparável.

            O antropólogo Clifford Geertz, em seu livro “A Interpretação das Culturas”, resume as definições de cultura propostas pelo antropólogo Clyde Kluckhohn: “o modo de vida global de um povo; o legado social que o indivíduo adquire de seu grupo; uma forma de pensar, sentir e acreditar; uma abstração do comportamento; uma teoria elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um celeiro de aprendizagem em comum; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; comportamento aprendido; um mecanismo para a regulamentação normativa do comportamento; um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; um precipitado da história.”

            Propondo uma Antropologia interpretativa, Geertz concebe o conceito de cultura como sendo essencialmente semiótico. Ele escreve: “Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas ideias e a sua análise. (...) uma ciência interpretativa, à procura do significado.”

            Essa proposta se opõe a uma outra concepção da Cultura que não se interessa tanto pelo significado mas vai buscar nos arranjos dos significantes as leis e possibilidades criativas que resultam nos modos de estar no mundo, seu pensar e agir. Essas redes não são criadas por indivíduo, ao contrário são elas que constituem os sujeitos. Aqui estamos diante de um olhar estruturalista.

            Temos aqui duas concepções de cultura, uma que propõe que ela é um sistema público de símbolos, significados, textos e práticas empregados para a orientação de si mesmo e do mundo, enquanto que a outra que ela é um reflexo da estrutura, não está plenamente consciente para os sujeitos.

            A Linguagem, uma de duas formas de manifestação que é a língua (articulada e escrita), constitui um patrimônio da Cultura. Os estudos das variações linguísticas, dos dialetos, dos sotaques, são capítulos interessantes para as ciências que se dedicam à compreensão dos grupos humanos. E isso também é definir o que é Cultura.

            Vale aqui trazer algumas definições sobre a noção de Cultura. As variações e amplitude são notórias. Uma noção genérica e bastante abrangente afirma que todas as realizações humanas, as criações materiais e seus sistemas de crenças constituem o que se pode chamar pelo nome de Cultura.

            O antropólogo Edward Tylor (1832-1917) escreveu que cultura “é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.” Essa definição é importante ainda que não contenha a característica viva da cultura em seu constante processo de transformação.

            A cultura também pode ser entendida como os bens simbólicos acumulados, partilhados e transmitidos e tem uma dimensão pública, nem sempre consciente. Roque de Barros Laraia, comentando as contribuições de Clifford Geertz, escreveu que “cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações, mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. Estudar a cultura é, portanto, estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura.”

            A antropóloga Ruth Benedict afirma que a cultura é a lente através da qual enxergamos o mundo. Diferentes lentes produzirão diferentes leituras, por vezes em oposição umas às outras. É dela uma expressão muito conhecida chamada “padrões de cultura”. Com esta noção, ela nota que as culturas são constituídas por esses padrões que se tornam operativos nas e através das pessoas, sendo transmitidos pelas gerações e pelas instituições sociais.

            Segundo Marshall Sahlins, a cultura nomeia e distingue a organização da experiência e da ação humanas por meios simbólicos.[1] Para ele, as pessoas, relações e coisas que povoam a existência humana manifestam-se essencialmente como valores e significados – significados que não podem ser determinados a partir de propriedades biológicas ou físicas.” Ele exemplifica dizendo que um macaco não sabe a diferença entre água benta e água destilada.

            A História do conhecimento humano vai buscar nas mitologias as origens das coisas que existem. Os mitos são uma forma explicativa daquilo que existe e é experienciado, mas que não se tem um saber, uma explicação racional de sua existência e de sua origem. Quando estudamos o fenômeno do sotaque, buscamos também sua origem, que processos ocorreram para a sua formação. Quando dizemos que o curitibano fala de um certo modo devido aos imigrantes que aqui chegaram e que quando se encontravam precisavam tentar se comunicar e para isso flexionando as palavras, estamos construindo o mito da criação deste sotaque. Numa primeira apressada aproximação, poderia parecer que mito e verdade se opõem, mas é mais correto afirmar que o mito é uma forma de expressão da verdade e não se opõe a ela, senão que a afirma com uma forma de narrativa que lhe é muito própria. Fazemos ciência ao criar mitos. Mito, história, ciência e verdade estarão imbricados na tarefa de explicar o sotaque.

            Explicar o sotaque curitibano está intimamente relacionado com a história da constituição da cidade de Curitiba, são fenômenos inseparáveis. O distanciamento temporal faz com que estejamos no limiar entre o mito e a história quando buscamos falar sobre essas origens. Estamos criando o mito das origens curitibanas e do sotaque curitibano ou estamos descrevendo a história desse fenômeno? E, afinal, mito e história precisam ser antagônicos?

            A relação entre linguagem e cultura sempre se apresentou como tema de debates acadêmicos, uns defendendo a ideia de que a linguagem é parte da cultura, outros supondo ser ela um de seus produtos, outros afirmando ser a cultura um produto da linguagem, outros propondo a cultura como espelho da linguagem. Quando tentamos explicar um fenômeno como o sotaque, precisamos primeiro entender que o sotaque é uma manifestação da linguagem, uma forma possível de criação particular surgido a partir de um fenômeno histórico.

            O sotaque é um fenômeno riquíssimo, pois seu surgimento problematiza e coloca em perspectiva esse debate entre cultura e linguagem. Destacado da língua, o sotaque pode ser pensado como o resultado da interação de fatores históricos e do encontro entre diferentes operadores da linguagem, em especial nesse caso no encontro de etnias diferentes, que, ao se encontrarem, e devido aos modos sui generis desse encontro, criaram esse modo particular de expressar a língua falada que é o sotaque. O antropólogo Claude Lévi-Strauss afirmava que “...para a Antropologia, que é uma conversa do homem com o homem, tudo é símbolo e signo que se coloca como intermediários entre dois sujeitos.”[2] Para ele, esse debate deixa de ter tanta importância e eleva essa discussão para outro nível, o da cooperação entre Antropologia e Linguística. Para resolver o problema, sentencia: "a linguagem e a cultura são duas modalidades de uma atividade mais fundamental: o espírito humano" ([1952] 1975:89). Para ele, linguagem e cultura resultam "do jogo de leis gerais".

            É de grande relevância o resgate e registro histórico do dualismo do pluriculturalismo no sotaque curitibano urbano e da periferia, oriundos das raízes étnicas-imigratórias, dos descendentes dos negros escravos e de índios que vivem na periferia de Curitiba e nas Reservas Indígenas da Região Metropolitana, tendo como meta principal, nesse caso dos índios, a identificação do seu linguajar e sua integração com a população urbana.

            Há uma crença incrustada nas mentalidades de que cultura boa seria uma cultura pura, uma cultura não manchada por outra cultura, uma cultura que preservasse seus modos sem a interferência de outras. Essa noção de pureza cultural é absurda. A noção de cultura envolve justamente as interações com outras. Os contatos entre etnias enriquecem as culturas. Só há cultura porque elas estão em contato. Caso contrário teríamos a entropia, o empobrecimento e rarefação tanto linguística quanto de práticas e costumes, que, no limite, colocaria em risco a existência do próprio grupo.

            Marshall Sahlins, em seu artigo de 1997 chamado “O Pessimismo Sentimental”, escreve sobre essa característica da cultura não dissolver ao contato: “Os Mendi, escreve Lederman, interagiam com os estrangeiros "sem perder o sentido de si mesmos" (1986b:9). O sistema cultural local "ainda é a estrutura dentro da qual os Mendi definem, categorizam e orquestram os novos objetos e modos de agir que lhes foram apresentados durante a última geração".

            E aqui vale a pena trazer mais uma vez o sotaque para apresentá-lo tanto como manifestação cultural e linguística, como também como exemplo vivo da expressão criativa dos contatos entre grupos. Isso porque podemos afirmar que o sotaque é uma variante da língua surgido a partir de um fenômeno cultural do contato entre grupos. Claro que há outras explicações, mas quando pensamos no sotaque curitibano poucos discordariam de que ele é resultante do fato que a cidade é historicamente constituída por diferentes ondas migratórias que trouxeram, além das práticas e costumes, cada qual a sua língua de origem. A interação entre os diferentes grupos não deteriorou a cultura, não acabou com a língua, mas produziu uma sonoridade toda própria e distintiva de falar. Continua-se falando o português, continua-se realizando uma série de práticas e costumes e modos de pensar, no entanto, esses contatos entre grupos étnicos enriqueceram o modo de ser curitibano, constituíram uma identidade.

            Ao entrevistar os imigrantes que aqui chegaram e seus filhos, notamos que os imigrantes não desenvolveram o sotaque curitibano ou incorporaram pouco dele. Eles preservaram o sotaque de sua língua de origem. Já os descendentes, os filhos destes imigrantes que aprenderam o português em Curitiba apresentam o sotaque, aprenderam o português com as características locais.

            O imigrante aprendeu uma nova língua. O filho do imigrante foi constituído por essa língua.

 

 

In: Dicionário de Conceitos Históricos - Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva – Ed. Contexto – São Paulo; 2006

 

 

[1]

                Sahlins, Marshall. O “pessimismo sentimental” e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um “objeto” em vias de extinção (parte I).

[2]

                 Lévi-Strauss, Claude. 1993 (1960). “O Campo da antropologia”. In: Antropologia Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. P. 19.

 

 

 

Cultura e Linguagem

Célio Luiz Pinheiro

 

 

                “Quando eu fui pela primeira vez para a Ucrânia, eu fui considerada praticamente um fóssil lingüístico. Apesar de, na minha casa, sempre se falar ucraniano.” Profª Oksana Boruszenko, imigrante ucraniana.

                “O sotaque curitibano, ele pega. O tal do leite quente, ele existe entre todos os imigrantes. E quando eles falam o português, eles falam com o sotaque daqui, de Curitiba... E pega...”

 

            As palavras dessas citações nos enviam de imediato à tarefa a que se propõe esse escrito: apresentar a noção de Cultura a partir de uma perspectiva antropológica. Tarefa gigante dado que esta é justamente a noção mais importante desta ciência que estuda as relações humanas, suas representações, seus simbolismos, suas práticas, suas manifestações, tudo isso constituindo uma intrincada complexidade.

            Entendemos a linguagem e a língua como patrimônios da cultura. Sua existência é histórica e revela as relações entre as pessoas que se utilizam dela. As diferenças entre línguas, as variantes de uma palavra em diferentes populações, mostram que a língua é uma entidade vida, operada nas práticas de vidas de grupos humanos.

            É com pertinência a várias disciplinas que podemos sustentar o estudo de vários fenômenos linguísticos. Uma variação de significados, de entonações e usos podem conduzir à criação de um dialeto ou mesmo de uma nova língua ao longo de um período de tempo em que as transformações vão se tornando independentes e sendo partilhadas por um grupo diferente de pessoas.

          É correto afirmar que as transformações numa língua podem resultar de processos históricos, relacionais, geográficos e que as ‘distorções’ na língua são de ordem relacional, social.

               Nos informa o antropólogo Roy Wagner que o conjunto de convenções mediante às quais certos sons ou grupos de sons são compreendidos como "representando" certas experiências e coisas culturalmente reconhecidas, e mediante às quais esses sons são ordenados e transformados para articular uma expressão significativa – esse corpo de "concordâncias" a que chamamos "linguagem" –, é sempre parte do aspecto coletivo da cultura. Com suas distinções lexicais, gramaticais e retóricas, a linguagem é sempre parte do moral e pertence aos contextos (relativamente) convencionalizados de uma cultura. (p.168)

            Assim, o sotaque, tema de nosso interesse, pode ser analisado a partir dessa base conceitual, ou seja, o sotaque revela um contexto relacional, revela a interação entre grupos humanos, revela a história demarcada num limite de espaço e tempo. Podemos afirmar que o modo particular de o curitibano expressar foneticamente certos grupos de palavras é resultante de um intrincado conjunto de ações humanas. Por essa razão o sotaque é tema de interesse antropológico. Tanto é verdade que ele é tema de interesse histórico, linguístico e geográfico.

            E não esqueçamos que o sotaque tanto quanto a língua está em constante transformação. A própria linguagem está sempre no processo de ser inventada. O sotaque está sempre em transformação mesmo que sensivelmente não tenhamos notícias dessas mudanças. A língua é viva, sempre bombardeada pelos contatos com outras línguas, sempre em trânsito para dar conta de revelar por metáforas os significados humanos. O sotaque está inseparavelmente ligado ao conceito de cultura.

            Para explicar o surgimento dos dialetos, das diferenciações entre palavras que as tornam predominantes e dísticas de uma língua, Roy Wagner expressa assim tal fenômeno: “os encontros com os contextos particulares de fala têm o efeito de objetificá-los e conferir-lhes características altamente específicas. Quando uma determinada palavra, expressão ou elemento gramatical ocorre com frequência em um contexto em detrimento de outros, adquire as associações peculiares daquele contexto, a ponto de perder seu status convencional. Podemos dizer que os elementos linguísticos gerais se tornam dessa maneira "especializados" – eles são "selecionados", consciente ou inconscientemente, para serem usados em certos contextos, de modo que a maior parte de suas associações dotadas de significado acaba por vir desses contextos. Por vezes, essa seleção constitui uma tendência geral entre os falantes de uma língua, e então as palavras, formas gramaticais ou retóricas sofrem uma mudança no que se refere à sua significação linguística global. Em outros casos, a seleção corresponde a preferências e hábitos de um certo contexto social, educacional ou ocupacional particular, ou de alguma classe ou grupo regional, resultando na diferenciação da própria linguagem em "estilos" e dialetos particulares. Em ambos os casos, o processo opera no sentido de particularizar e diferenciar as propriedades coletivas da linguagem por meio dos diversos conteúdos e situações de fala para "des-convencionalizá-los" de uma maneira ou de outra. Palavras individuais, expressões e usos gramaticais são com frequência particularizados a ponto de sua aplicabilidade convencional ver-se gradualmente restringida.” (p. 175)

            É a língua a responsável pela conservação e transmissão de valores entre as pessoas de um grupo e entre suas gerações.

            A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha afirma que “a tradicionalidade de um grupo não se mede, com efeito, pela vigência de sua antiga indumentária, de suas técnicas agrícolas, de suas casas, mas sim no ‘uso’ que ele faz de velhas categorias como princípio organizadores da realidade vivida, por inesperada que ela seja. Para tanto, a conservação da língua parece ser de suma importância, já que ela encerra e expressa o sistema simbólico.” (CUNHA, 1978. p. 5)

            Apesar de a palavra Cultura ser de domínio público e seu uso vulgar poder ser acionado a todo instante para “explicar” de forma sintética uma variedade de fatos sociais, não imaginamos quanto seu uso fácil esconde intrincadas redes complexas que sustentam as vidas humanas em sociedade, bem como suas instituições.

            Convida-se aqui o leitor a adentrar esse interessante mundo a que chamamos Cultura. Este texto tomará por base a Antropologia e alguns de seus expoentes e escolas para a apresentação da Cultura. Roy Wagner, escreve: “A Antropologia estuda o fenômeno do homem – a mente humana, seu corpo, sua evolução, origens, instrumentos, arte ou grupos, não simplesmente em si mesmos, mas como elementos ou aspectos de um padrão geral ou de um todo”. A tudo isso podemos chamar Cultura.

            A etimologia da palavra Cultura nos remeter à ideia de cultivo da terra, cultivar a terra. Cultura do solo. Cultura então seria toda ação humana oriunda da manipulação de técnicas que visam inicialmente a sobrevivência, chegando até a produção das comodidades. Daqui derivam as noções, segundo Roy Wagner, de domesticação e refinamento humano para a vida em coletividade, ideias essas advindas do controle, refinamento e aperfeiçoamento das técnicas agrícolas.

            O significado mais simples desse termo afirma que cultura abrange todas as realizações materiais e os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, em outras palavras, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano concreto ou no plano imaterial, desde artefatos e objetos até ideais e crenças.

            As práticas humanas sobre o planeta são em número bastante reduzido e temos necessidades básicas para a manutenção da vida que são idênticas em todos os lugares: alimentação, sono, higiene, sexo são algumas delas. Mas os modos como realizamos essas atividades, a periodicidade e a riqueza ou ausência de detalhes nos modos de execução vão constituir as profundas diferenças entre povos distintos. Assim, em algum lugar no Oriente Médio, uma família fará sua refeição ao meio-dia, com a família reunida, todos sentados em tapetes coloridos, o pai à direita, a mãe à esquerda, comerão com as mãos sem o uso de talheres a comida que está disposta em um único recipiente; enquanto isso, em alguma cidade Ocidental, uma família estará fazendo sua refeição numa mesa, com o uso de pratos individuais, talheres, uma televisão ligada e sem qualquer hierarquia padronizada quanto à disposição das pessoas à mesa. Tanto num lugar quanto em outro, os grupos realizaram a mesma atividade: elas se alimentaram!

            Este mesmo raciocínio vale para as outras atividades humanas. Mas como elas o fizeram, tornaram-nas particulares, excêntricas umas às outras. O que permite a um viajante ficar indignado, surpreso, extasiado, feliz, enojado ou admirado ao observar as práticas diferentes de uma mesma “tarefa” em lugares diferentes. Esse viajante é capaz de olhar para tudo isso e dizer, por exemplo, que comer carne de cachorro “é cultural”. Não sem razão, é claro, porém essa constatação não revela a profundidade da experiência, ela apenas fecha uma questão, sentencia a diferença, mas não a explica. Explicar, descrever de forma mais detalhada, estabelecendo relações históricas, simbólicas, aí sim, estamos definindo o que é Cultura.

            O conceito de Cultura não se aplica ao modo como cada grupo realiza suas tarefas, senão que ela pode se definir pelo contraste! E nos interessa justamente conhecer os grupos humanos a partir das diferenças entre eles. Se todos fizéssemos sempre as mesmas coisas, do mesmo modo, em todos os lugares, não saberíamos o que são diferenças e a palavra Cultura não faria qualquer sentido.

            Portanto, a palavra Cultura abre a indagação, abre o questionamento, inicia a pesquisa, começa o processo de entendimento, dá o passo inicial à explicação dos fenômenos. A Cultura não é uma explicação que se resume na própria palavra Cultura. Dizer que Curitiba é uma cidade limpa porque isso é “cultural”, não explica a razão pela qual Curitiba é uma cidade limpa. O que define a noção de Cultura aqui é o processo histórico e as relações entre as pessoas cujos resultados fizeram com que as pessoas se sentissem constrangidas em jogar o lixo na rua. Então, a Cultura não é dada, não se nasce com ela. Ela é primeiramente constituída, depois constantemente transformada (ainda que se resistam às transformações e que elas ocorram de forma lenta), depois transmitida entre pessoas, gerações e instituições e requer que seja aprendida ou que ela mesma constitua as pessoas.

            A Cultura sempre existe para o Outro. É o outro que me informa que eu tenho uma cultura. Alguém pode me dizer: “você fala com um sotaque carregado”, ao que eu posso retrucar: “não, quem fala estranho é você!” O sotaque só é percebido pelo outro, portanto, quem percebe as diferenças e os contrastes é sempre o outro, e não o eu, mergulhado na própria cultura. Disso já resultaram muitos conflitos, ainda mais se eu pretendo que a minha forma de proceder é a verdadeira. É como dizer que a cultura só existe porque existe o outro, porque existe outra cultura, o que faz com que o conceito mesmo de cultura seja um reflexo desse encontro. Quem fala da cultura, fala do ponto de onde não está. Eu falo do seu sotaque porque não participo dele, por isso, só posso dizer que o sotaque é uma manifestação cultural se eu sou o outro, aquele que percebe. O mesmo vale para os outros estranhamentos. Ao comunicar ao outro que ele tem um sotaque, eu invento para esse outro uma Cultura. Essa é uma ideia do antropólogo Roy Wagner, expressa em importante livro chamado “A Invenção da Cultura”.

            Considero provocativa a ideia de pensar, seguindo Roy Wagner, a cultura como o termo mediador, uma maneira de descrever outros como descreveríamos a nós mesmo, e vice-versa.

            Também é dele uma ideia bem interessante, que diz que para verdadeiramente saber do que se trata em uma cultura não é simplesmente aprender uma nova cultura, é preciso assumi-la de modo a experimentar uma transformação de seu próprio universo. Se não experimento, não posso dizer que conheço! Isso levou muitos antropólogos a viverem muitos anos entre os grupos que estudavam, bem como à necessidade de aprender a falar a língua nativa para compreender como vivem aquelas pessoas.

            Sim, a Cultura constitui os sujeitos. A transmissão cultural se dá através da linguagem em suas mais variadas formas de expressão: falada, escrita, gesticulada, através das crenças, das leis, dos valores familiares.

            Quando no processo de educação de uma criança dizemos “isso pode”, “isso não pode”, “isso é feio”, “isso não se deve fazer”, estamos construindo um sujeito através da linguagem, fazendo com que a língua seja o constituinte das noções morais de um determinado grupo. O vínculo entre Cultura e Linguagem é profundo, inseparável.

            O antropólogo Clifford Geertz, em seu livro “A Interpretação das Culturas”, resume as definições de cultura propostas pelo antropólogo Clyde Kluckhohn: “o modo de vida global de um povo; o legado social que o indivíduo adquire de seu grupo; uma forma de pensar, sentir e acreditar; uma abstração do comportamento; uma teoria elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um celeiro de aprendizagem em comum; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; comportamento aprendido; um mecanismo para a regulamentação normativa do comportamento; um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; um precipitado da história.”

            Propondo uma Antropologia interpretativa, Geertz concebe o conceito de cultura como sendo essencialmente semiótico. Ele escreve: “Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas ideias e a sua análise. (...) uma ciência interpretativa, à procura do significado.”

            Essa proposta se opõe a uma outra concepção da Cultura que não se interessa tanto pelo significado mas vai buscar nos arranjos dos significantes as leis e possibilidades criativas que resultam nos modos de estar no mundo, seu pensar e agir. Essas redes não são criadas por indivíduo, ao contrário são elas que constituem os sujeitos. Aqui estamos diante de um olhar estruturalista.

            Temos aqui duas concepções de cultura, uma que propõe que ela é um sistema público de símbolos, significados, textos e práticas empregados para a orientação de si mesmo e do mundo, enquanto que a outra que ela é um reflexo da estrutura, não está plenamente consciente para os sujeitos.

            A Linguagem, uma de duas formas de manifestação que é a língua (articulada e escrita), constitui um patrimônio da Cultura. Os estudos das variações linguísticas, dos dialetos, dos sotaques, são capítulos interessantes para as ciências que se dedicam à compreensão dos grupos humanos. E isso também é definir o que é Cultura.

            Vale aqui trazer algumas definições sobre a noção de Cultura. As variações e amplitude são notórias. Uma noção genérica e bastante abrangente afirma que todas as realizações humanas, as criações materiais e seus sistemas de crenças constituem o que se pode chamar pelo nome de Cultura.

            O antropólogo Edward Tylor (1832-1917) escreveu que cultura “é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.” Essa definição é importante ainda que não contenha a característica viva da cultura em seu constante processo de transformação.

            A cultura também pode ser entendida como os bens simbólicos acumulados, partilhados e transmitidos e tem uma dimensão pública, nem sempre consciente. Roque de Barros Laraia, comentando as contribuições de Clifford Geertz, escreveu que “cada um de nós sabe o que fazer em determinadas situações, mas nem todos sabem prever o que fariam nessas situações. Estudar a cultura é, portanto, estudar um código de símbolos partilhados pelos membros dessa cultura.”

            A antropóloga Ruth Benedict afirma que a cultura é a lente através da qual enxergamos o mundo. Diferentes lentes produzirão diferentes leituras, por vezes em oposição umas às outras. É dela uma expressão muito conhecida chamada “padrões de cultura”. Com esta noção, ela nota que as culturas são constituídas por esses padrões que se tornam operativos nas e através das pessoas, sendo transmitidos pelas gerações e pelas instituições sociais.

            Segundo Marshall Sahlins, a cultura nomeia e distingue a organização da experiência e da ação humanas por meios simbólicos.[1] Para ele, as pessoas, relações e coisas que povoam a existência humana manifestam-se essencialmente como valores e significados – significados que não podem ser determinados a partir de propriedades biológicas ou físicas.” Ele exemplifica dizendo que um macaco não sabe a diferença entre água benta e água destilada.

            A História do conhecimento humano vai buscar nas mitologias as origens das coisas que existem. Os mitos são uma forma explicativa daquilo que existe e é experienciado, mas que não se tem um saber, uma explicação racional de sua existência e de sua origem. Quando estudamos o fenômeno do sotaque, buscamos também sua origem, que processos ocorreram para a sua formação. Quando dizemos que o curitibano fala de um certo modo devido aos imigrantes que aqui chegaram e que quando se encontravam precisavam tentar se comunicar e para isso flexionando as palavras, estamos construindo o mito da criação deste sotaque. Numa primeira apressada aproximação, poderia parecer que mito e verdade se opõem, mas é mais correto afirmar que o mito é uma forma de expressão da verdade e não se opõe a ela, senão que a afirma com uma forma de narrativa que lhe é muito própria. Fazemos ciência ao criar mitos. Mito, história, ciência e verdade estarão imbricados na tarefa de explicar o sotaque.

            Explicar o sotaque curitibano está intimamente relacionado com a história da constituição da cidade de Curitiba, são fenômenos inseparáveis. O distanciamento temporal faz com que estejamos no limiar entre o mito e a história quando buscamos falar sobre essas origens. Estamos criando o mito das origens curitibanas e do sotaque curitibano ou estamos descrevendo a história desse fenômeno? E, afinal, mito e história precisam ser antagônicos?

            A relação entre linguagem e cultura sempre se apresentou como tema de debates acadêmicos, uns defendendo a ideia de que a linguagem é parte da cultura, outros supondo ser ela um de seus produtos, outros afirmando ser a cultura um produto da linguagem, outros propondo a cultura como espelho da linguagem. Quando tentamos explicar um fenômeno como o sotaque, precisamos primeiro entender que o sotaque é uma manifestação da linguagem, uma forma possível de criação particular surgido a partir de um fenômeno histórico.

            O sotaque é um fenômeno riquíssimo, pois seu surgimento problematiza e coloca em perspectiva esse debate entre cultura e linguagem. Destacado da língua, o sotaque pode ser pensado como o resultado da interação de fatores históricos e do encontro entre diferentes operadores da linguagem, em especial nesse caso no encontro de etnias diferentes, que, ao se encontrarem, e devido aos modos sui generis desse encontro, criaram esse modo particular de expressar a língua falada que é o sotaque. O antropólogo Claude Lévi-Strauss afirmava que “...para a Antropologia, que é uma conversa do homem com o homem, tudo é símbolo e signo que se coloca como intermediários entre dois sujeitos.”[2] Para ele, esse debate deixa de ter tanta importância e eleva essa discussão para outro nível, o da cooperação entre Antropologia e Linguística. Para resolver o problema, sentencia: "a linguagem e a cultura são duas modalidades de uma atividade mais fundamental: o espírito humano" ([1952] 1975:89). Para ele, linguagem e cultura resultam "do jogo de leis gerais".

            É de grande relevância o resgate e registro histórico do dualismo do pluriculturalismo no sotaque curitibano urbano e da periferia, oriundos das raízes étnicas-imigratórias, dos descendentes dos negros escravos e de índios que vivem na periferia de Curitiba e nas Reservas Indígenas da Região Metropolitana, tendo como meta principal, nesse caso dos índios, a identificação do seu linguajar e sua integração com a população urbana.

            Há uma crença incrustada nas mentalidades de que cultura boa seria uma cultura pura, uma cultura não manchada por outra cultura, uma cultura que preservasse seus modos sem a interferência de outras. Essa noção de pureza cultural é absurda. A noção de cultura envolve justamente as interações com outras. Os contatos entre etnias enriquecem as culturas. Só há cultura porque elas estão em contato. Caso contrário teríamos a entropia, o empobrecimento e rarefação tanto linguística quanto de práticas e costumes, que, no limite, colocaria em risco a existência do próprio grupo.

            Marshall Sahlins, em seu artigo de 1997 chamado “O Pessimismo Sentimental”, escreve sobre essa característica da cultura não dissolver ao contato: “Os Mendi, escreve Lederman, interagiam com os estrangeiros "sem perder o sentido de si mesmos" (1986b:9). O sistema cultural local "ainda é a estrutura dentro da qual os Mendi definem, categorizam e orquestram os novos objetos e modos de agir que lhes foram apresentados durante a última geração".

            E aqui vale a pena trazer mais uma vez o sotaque para apresentá-lo tanto como manifestação cultural e linguística, como também como exemplo vivo da expressão criativa dos contatos entre grupos. Isso porque podemos afirmar que o sotaque é uma variante da língua surgido a partir de um fenômeno cultural do contato entre grupos. Claro que há outras explicações, mas quando pensamos no sotaque curitibano poucos discordariam de que ele é resultante do fato que a cidade é historicamente constituída por diferentes ondas migratórias que trouxeram, além das práticas e costumes, cada qual a sua língua de origem. A interação entre os diferentes grupos não deteriorou a cultura, não acabou com a língua, mas produziu uma sonoridade toda própria e distintiva de falar. Continua-se falando o português, continua-se realizando uma série de práticas e costumes e modos de pensar, no entanto, esses contatos entre grupos étnicos enriqueceram o modo de ser curitibano, constituíram uma identidade.

            Ao entrevistar os imigrantes que aqui chegaram e seus filhos, notamos que os imigrantes não desenvolveram o sotaque curitibano ou incorporaram pouco dele. Eles preservaram o sotaque de sua língua de origem. Já os descendentes, os filhos destes imigrantes que aprenderam o português em Curitiba apresentam o sotaque, aprenderam o português com as características locais.

            O imigrante aprendeu uma nova língua. O filho do imigrante foi constituído por essa língua.

 

 

In: Dicionário de Conceitos Históricos - Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva – Ed. Contexto – São Paulo; 2006

 

 

[1]

                Sahlins, Marshall. O “pessimismo sentimental” e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um “objeto” em vias de extinção (parte I).

[2]

                 Lévi-Strauss, Claude. 1993 (1960). “O Campo da antropologia”. In: Antropologia Estrutural Dois. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. P. 19.

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