Os textos a seguir foram  publicados originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

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A pesquisa de campo

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

            A pesquisa de campo colheu informações e registrou histórias que nos foram contadas sobre: imigração; imigrantes e a dificuldade com o idioma português; descendentes e o aprendizado da língua portuguesa; conflitos socioculturais; preservação e a herança cultural; e o sotaque e as expressões curitibanas. As entrevistas foram realizadas, de um modo geral, no âmbito familiar de cada personagem, com a participação de pelo menos um representante de cada grupo étnico que historicamente tenha influenciado nossa cultura e nosso modo de falar.

            Como o objeto do projeto foi o de colher informações sobre as origens do nosso sotaque e da cultura curitibana junto a comunidades étnicas, entendemos que a aplicação da metodologia de pesquisa empírica foi a mais adequada, pois se guiou por meio de experiências vividas e/ou presenciadas pelos personagens entrevistados – no empirismo¹, os fatos se apoiam unicamente nas experiências vividas por cada indivíduo, na observação de coisas, ou seja, não se fundamenta nas teorias e nem em metodologias científicas, mas somente e por meio do conhecimento adquirido por ele durante toda a vida, o que resulta na sua própria cultura.

            O empirismo caracteriza-se pelo senso comum. Cada um compreende as coisas à sua maneira e isso gera um aprendizado, pois adquirimos novos conhecimentos por meio das experiências vividas e presenciadas que, apesar de serem consideradas teoricamente superficiais, sensitivas e subjetivas, nos auxiliam na compreensão dos fatos, a partir da maturidade experimental do(s) outro(s), ou pela observação de determinado contexto.

            Assim podemos entender que a pesquisa empírica é o levantamento de dados a partir de fontes diretas (pessoas) que conhecem, vivenciam ou tem conhecimento sobre algum tema, fato ou situação e que podem causar diferenciação na abordagem e entendimento dos mesmos, conduzindo a uma mudança, acréscimo ou alteração profunda e relevante, que não distorça, agrida ou altere o conteúdo principal, mas sim que o enriqueça e transforme em conhecimento de fácil compreensão e também sentindo-se atraído pelo tal.

 

¹ Empirismo: doutrina segundo a qual todo conhecimento provém unicamente da experiência, limitando-se ao que pode ser captado do mundo externo, pelos sentidos, ou do mundo subjetivo, pela introspecção, sendo geralmente descartadas as verdades reveladas e transcendentes do misticismo, ou apriorísticas e inatas do racionalismo.

 

  1. Júlio César da Silva Corrêa e Marília de Melo Costa, IEPA, Belém, 2012, Metodologia de Pesquisa I e II;
  2. Pesquisa Teórica e Pesquisa Empírica – por Marcela Cavalini, http://www.midia.uff.br/metodologia/?p=169694, Março, 31, 2016;
  3. Tatiane Engel Gerhardt e Denise Tolfo Silveira, Metodologias de Pesquisa, UFRGS, 1ª edição, 2009;
  4. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pesquisa_emp%C3%ADrica

 

            O aporte principal na aplicação da pesquisa empírica foi a entrevista narrativa, para a qual, inicialmente, estabelecemos alguns conceitos para a escolha dos indivíduos que corresponderiam ao perfil desejado, como: origens étnicas, períodos imigratórios e faixas etárias. O objetivo foi que se evidenciassem dados e informações cuja análise nos apontaria a necessidade ou não de aprofundamento sobre as questões previamente abordadas, e com base nas divergências e/ou ausência de informações detectadas em relação aos estudos existentes sobre o tema. Assim, reunimos informações importantes para delinear o conteúdo a ser abordado nas entrevistas, como também nas demais pesquisas que compõe esse projeto.

            O método utilizado de pesquisa empírica, tendo como veículo a entrevista narrativa, é tido como um gênero de pesquisa sociolinguística, que é um dos pilares desse estudo. O objeto do projeto foi o de envidar esforços conjuntos na busca por matérias que demonstrassem as raízes do sotaque curitibano, cujos paradigmas preexistentes apontam como causa principal a miscigenação de culturas havida entre os habitantes que povoavam Curitiba e sua região (espanhóis, negros e índios, portugueses, paulistas, tropeiros) com os novos povos que vieram, ou seja, os colonizadores europeus, que em sua maioria imigraram para o Brasil movidos e incentivados pela promessa repleta de premissas de que aqui seria um novo eldorado de abundância e terras para plantar e cultivar suas raízes. O “processo imigratório” foi de relevada importância para a formação da cultura brasileira, e por sua vez, da formação da identidade cultural dos curitibanos.

              O corpus da pesquisa foi formado por imigrantes, descendentes de imigrantes europeus, árabes, afrodescendentes e indígenas. Pelo seu caráter empírico, a pesquisa de campo se utilizou de alguns critérios preparados previamente para que houvesse uma compreensão e familiaridade com o fenômeno objeto da conversa e seus fins – por exemplo, elaboramos alguns questionários com perguntas pertinentes ao tema proposto e realizamos uma entrevista prévia com cada indivíduo que seria posteriormente entrevistado com coleta de imagens para a produção audiovisual.

Esse entendimento nos propiciou ambientes acolhedores, e todas as falas e abordagens foram feitas utilizando-se uma linguagem simples, que permitiu uma melhor comunicação e desenvoltura dos entrevistados para o recolhimento das informações. Dessa forma, os entrevistados se sentiram muito à vontade e narraram com espontaneidade suas histórias e também as lembranças dos episódios vividos por seus antepassados.

             Devido à característica que adotamos ao interagir, ora respaldando alguns conteúdos, ora também citando fatos do nosso conhecimento, por vezes colocando-nos em situações idênticas ou muito próximas às relatadas pelos entrevistados, estabeleceu-se um nível de confiança entre as partes.

 

¹ “(...para proceder a esta técnica de recolha de informação, devem ser tidos em conta alguns critérios, uma vez que esta pressupõe uma preparação prévia, ou seja, deve haver uma ampla compreensão do fenômeno, uma familiaridade ou proximidade com as pessoas entrevistadas para que se desenvolva um ambiente de confiança, uma linguagem acessível para uma melhor comunicação...)” ,

 Atas CIAIQ2016 >>Investigação Qualitativa em Ciências Sociais//Investigación Cualitativa en Ciencias Sociales//Volume 3.  (??????)   

 

         Aos quase 140 anos do advento do processo imigratório ocorrido, o qual provocou uma síntese cultural entre os habitantes que povoavam Curitiba naquela época e os imigrantes, que nos deixou riquíssima herança de arte e cultura, compreendemos que seria sensato e coerente buscarmos junto aos descendentes remanescentes de 1ª e 2ªs gerações, e das gerações mais recentes dos referidos grupos étnicos dos imigrantes, e a nossa prioridade foi a de entrevistar pessoas que fossem descendentes de imigrantes diretos, que estariam na faixa etária de 90 anos aproximadamente, e demais gerações subsequentes.

         Vislumbramos com a escolha dessa faixa etária, a possibilidade de colher dados importantes relacionados à cultura original dos imigrantes, seja na sua língua – seu modo de falar, seus hábitos e suas tradições, e averiguar se essa cultura sofreu mudanças em relação às gerações mais recentes, devido às influências dos hábitos, do idioma e do modo de viver dos brasileiros, e quais dessas culturas originais permanecem vivas entre os descendentes aqui residentes.

         Os entrevistados de um modo geral, foram: descendentes de primeira geração dos imigrantes europeus vindos para o Brasil nas primeiras décadas do século 20; imigrantes europeus que vieram para o Brasil no período pós II Guerra Mundial (1939-1945), e que estão hoje na faixa etária entre 75 a 85 anos; e descendentes de 3 e 4ªs gerações.

Da mesma forma, buscamos descendentes de origem africana que pudessem contribuir com suas histórias e lembranças dos seus antepassados e/ou sobre sua cultura, particularmente em relação à herança de palavras da língua africana que foi apropriada pelo nosso vocabulário e em nossas expressões populares, bem como as suas tradições culinárias e religiosas.

         A pesquisa sobre os descendentes indígenas, foi realizada junto aos membros da “Aldeia Tupã Nhe’é Kretã, localizada em Morretes no Paraná, na divisa com o Município de São José dos Pinhais, na reserva ambiental da Usina de Guaricana.

Priorizamos identificar ações que vem sendo implementadas para a preservação dos seus linguajares, uma vez que nessa aldeia estão abrigados membros das tribos Mbyá-Guarani, Kaigang e Kaiowá; a interação dos membros da aldeia com a população urbana; e também identificar palavras de origem indígena que foram agregadas em nosso vocabulário.

            Nesses tempos de transição cultural, optamos pela metodologia de observação do bem comum coletivo. Refletir e pesquisar sobre os paradigmas preexistentes, de encontro à realidade empírica vivenciada pelos personagens entrevistados.

            As comunidades pesquisadas já são historicamente contextualizadas em estudos e publicações sobre a imigração europeia¹ ocorrida no Brasil. Os entrevistados são membros de comunidades étnicas e foram escolhidos por meio de indicação de representações culturais, sociais e religiosas, e também por indicação dos profissionais atuantes no projeto, que por sua notoriedade orientaram sobre os indivíduos que corresponderiam ao perfil desejado para as entrevistas.

            O conhecimento empírico é muitas vezes superficial, sensitivo e subjetivo, dentro do universo íntimo de cada um, por assim dizer, e é com muita sensibilidade e tranquilidade que nos conduzimos e analisamos a realidade pesquisada em comparação às impressões obtidas anteriormente.

            As atividades de filmografia se aplicaram conjuntamente à pesquisa de campo, além de imagens de acervos particulares e cenários pertinentes à pesquisa.

 

¹Fatos pertinentes à imigração europeia estão contemplados na Pesquisa Histórica e Antropológica integrantes desse trabalho.

 

Fonte: História da Imigração no Brasil –Resumo sobre a História da Imigração no Brasil, chegada dos imigrantes europeus, https://www.historiadobrasil.net/imigracao/

 

 

 

            Porém, para entrarmos nesta seara tão complexa que é a questão da origem do sotaque curitibano, foi imprescindível revisitar nossa história por meio de pesquisas nas áreas de História, Sociolinguística e Antropologia, além da Pesquisa de Campo, que nos proporcionou um contato mais íntimo com alguns personagens que contribuíram significativamente com informações, cujos elementos demonstraram, entre outros, a dificuldade encontrada pelos imigrantes e seus primeiros descendentes em relação ao aprendizado da língua portuguesa, e questões de conflitos socioculturais decorridos desse fato, que por si foram responsáveis também por esse estigma criado em torno do “nosso jeito de ser”, particularmente sobre “nosso modo de falar e nosso sotaque,” que aqui carinhosamente passamos a chamar de Sultaque.

Considerações finais

 

 

            Como podemos observar , foi substanciosa a quantidade de imigrantes que vieram para o Brasil, o que obviamente gerou problemas de adaptação dessas comunidades entre si e em relação aos brasileiros, não somente pelos mais variados idiomas falados, mas também, pela característica sociocultural de cada grupo:

 

“O governo imperial no Brasil, em 32 anos de imigração, gastou 10 milhões de libras esterlinas para o transporte e colonização de imigrantes europeus. A corrente imigratória para o Brasil trouxe, até 1947, cerca de 4 milhões e 903 mil europeus e asiáticos. Dados mais recentes do Prof. Ruy C. Wachowicz aumenta o período e os números de levantamento de 1820 a 1955”¹.

 

¹, ²Ulisses Iarochinski, Saga dos Polacos, pág 68, Curitiba, Brasil, 2000,

 

            Pelos depoimentos colhidos e pelas pesquisas realizadas, entende-se que os conflitos sociolinguísticos que existiram nos primeiros tempos pós-imigração deram-se, principalmente, pela forte e expressiva presença de vários linguajares, que convergiram para um mesmo local.

            A cultura homogênea de cada grupo “se encontrava e se misturava” para trabalhar ou vender seus produtos da lavoura, principalmente na região central, no Largo da Ordem e nas praças. Como a comunicação era muito precária, criavam-se situações até mesmo vexatórias pela falta de entendimento. Não é difícil de se imaginar o “caos” que se formava.

 

FO45(SN98)

           

Polonesas ao lado das carroças no Largo Coronel Enéas, Rua Jose Bonifácio, Município de Curitiba

 “Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimonio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba”, Coleção Família Groff

 

            Por essa razão, nasceu a necessidade dos imigrantes aprenderem a língua portuguesa, para todos falarem o mesmo idioma, sem conflitos. Isso se tornou imprescindível aos olhos do governo, principalmente o ensino do português para as crianças que imigraram e também os primeiros descendentes. Várias ações foram tomadas de ambos os lados – comunidades de imigrantes e governo – para sanar urgentemente a questão do idioma, conforme constam nos documentos oficiais do Acervo do Arquivo Público do Estado do Paraná sobre imigrantes e questões relacionadas à educação, já mencionados no texto histórico de Marcelo Saldanha Sutil.

            A diferença de costumes e o linguajar estranho aos ouvidos dos curitibanos com certeza causaram situações que exigiram por parte dos imigrantes muita resignação e empenho, para que a adaptação ocorresse o mais brevemente possível. Mas isso não aconteceu, pelo menos não da forma que provavelmente haviam imaginado antes de embarcarem para o Brasil, principalmente os imigrantes colonos que foram alocados em regiões distantes da cidade, sem a estrutura cultural que estavam habituados – esses foram mais exigidos do que os imigrantes com condições financeiras mais prósperas, que conseguiram se fixar na região central e arredores mais próximos de Curitiba, onde os meios de adaptação eram melhores.

            Os colonos tiveram muita luta tanto para se estruturar e formar as colônias, construindo suas casas, igrejas e escolas estrangeiras para seus filhos, como também para preservar sua cultura no novo mundo. Aos poucos, eles foram para além das colônias e criaram as sociedades para abrigar os novos recém-chegados em suas necessidades mais prementes, dando-lhes abrigo e apoiando na busca por trabalho, e para que também tivessem um lugar para praticar, desenvolver e preservar sua cultura, mal sabendo naquela época o quão impactante essas culturas seriam para a evolução sociocultural da cidade.

            O idioma português, para muitos, tornou-se um dilema eterno, principalmente para os imigrantes adultos que já vieram (ou não) alfabetizados de sua terra natal – a situação se agravou para os que foram viver nas colônias, pois a ausência de convívio com brasileiros prejudicou o aprendizado do novo idioma. As crianças das comunidades somente foram ter contato com a língua portuguesa quando foram para a escola e, inicialmente, sofreram até mesmo preconceito por terem dificuldade no aprendizado.

            A interação cultural que ocorreu entre as sociedades étnicas fundadas em Curitiba contribuiu para esse aprendizado, pelo contato sociocultural havido entre os grupos étnicos. Um relato sobre esse fato nos foi dado por Ney Luiz Moreira de Freitas, membro da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, criada pelos negros em 1888. Ele lembrou que os registros históricos nas atas da sociedade e as histórias contadas pelos mais antigos destacaram que era comum naquela época as sociedades “se convidarem” umas às outras para os eventos que eram promovidos, e que pelo menos um representante de cada sociedade comparecia a esses eventos. Ney Falou também sobre a interação dos negros com os imigrantes, e que a Sociedade 13 de Maio também acolheu os que chegaram em Curitiba vindo da Europa.

            Essa interação também aconteceu no mercado de trabalho, com os negros e imigrantes europeus trabalhando juntos na construção civil na época, inclusive no período da construção da Igreja Catedral de Curitiba. Ney relatou que os negros foram sendo preteridos pelos imigrantes, que tinham mais experiência, mas acabaram tendo o apoio dos seus antigos senhores, que lhes encaminhavam para outras frentes de trabalho.

            Os imigrantes adultos que chegaram a Curitiba não conseguiam o emprego por não falar o idioma português, ou então, muitas vezes não galgavam um posto melhor, apesar da experiência. As mulheres que foram trabalhar em lojas ou em casas de família conseguiram aprender mais rapidamente, pois forçosamente tinham que compreender e falar com seus patrões.

            Em vários relatos, foi constatado que uma das “técnicas” para que o imigrante aprendesse o português foi justamente o “falar” cadenciado (bem devagar) ou silábico dos seus interlocutores, fossem professores, colegas de escola, moradores locais e religiosos, pois só conseguiam compreender e se expressar por meio de gestos. Os mais jovens que já estavam dominando o idioma português foram ensinando os mais velhos, apesar de ainda carregarem o sotaque e o vocábulo pátrio.

            Provavelmente, essa é uma das razões dos curitibanos falarem de forma cadenciada e silábica, entonando fortemente a pronúncia dos fonemas, que se traduz no seu sotaque característico. Foi assim que o idioma lhes foi transmitido no âmbito familiar e no convívio com a sociedade, uma herança da forte influência exercida pelas comunidades étnicas imigratórias e pelos descendentes dos povoadores de Curitiba que já habitavam a cidade antes das primeiras imigrações – entre eles, espanhóis, portugueses, paulistas, índios, negros e tropeiros.

            Conforme os relatos colhidos, devido ao pouco empenho ou ao desinteresse total dos mais jovens, existe sim uma preocupação dos descendentes de gerações mais antigas de imigrantes com relação à preservação da cultura e costumes dos antepassados, mais notadamente na questão da língua. Essa preocupação tem incentivado em algumas comunidades ações de conscientização e oferecimento do ensino do idioma –  atualmente, muitas línguas, principalmente as eslavas, são ministradas em universidades e instituições de ensino particulares.

            Outros relatos mostraram que a preservação de alguns hábitos e costumes está comprometida devido às influências da modernidade. Um exemplo, citado pelos mais antigos, é o desinteresse “das moças” em aprender a bordar, tricotar e fazer crochê, e também a cozinhar as comidas típicas – eles não as culpam, apenas se ressentem ao ver essa cultura se perdendo.

            Pode-se dizer que os grupos folclóricos são os mais expressivos mantenedores das culturas e das raízes étnicas. Não se trata apenas de aprender a dançar, mas sim de estudar uma determinada cultura e sua história. Com isso, os jovens se reaproximam da história e da cultura dos seus antepassados.

            As comidas típicas são um ponto alto entre os descendentes, principalmente dos que estão inseridos no comércio de Curitiba, muito procurados e apreciados pelos turistas. O povo curitibano herdou hábitos alimentares de todos os povos que se estabeleceram na cidade, e são vários os pratos e alimentos que rotineiramente estão em suas mesas: feijoada, acarajé, arroz carreteiro, muqueca, quibebes, bacalhoada, pizza, ravioli (pierogui), cuque (kuca), chucrute com batata cozida, charuto de repolho, tabule, kafta (bolinho de carne), beirute, esfiha, quibe frito ou assado, batata suíça, sopas de verduras, polenta, “vina” ou "Wiener" – palavra de origem alemã para a salsicha de Viena, muito apreciada no “cachorro-quente com duas vinas” –, assim como os mais variados temperos e pimentas, o azeite de oliva. Além das culturas alimentícias tradicionais herdadas dos antepassados, também foram agregados também outros “gostos”, como as comidas chinesa e japonesa, extremamente apreciadas pelos curitibanos.

            Nas épocas de comemorações religiosas, como a Páscoa e o Natal, pode-se encontrar uma enorme variedade de produtos alimentícios artesanais nas feiras que são realizadas nas praças de Curitiba. Nessas ocasiões, também são encontradas as “Pêssankas”, que são produzidas pelos descendentes de ucranianos, lindamente desenhadas e pintadas – elas são presenteadas na manhã da Páscoa para amigos e familiares, simbolizando o “Cristo ressuscitado”. Essa é uma das tradições da comunidade ucraniana que ainda se preserva, além dos ritos religiosos que incluem as procissões nos entornos das igrejas.

            Na Feirinha do Largo da Ordem, ponto de encontro das etnias de Curitiba, são encontrados os mais variados tipos de artesanato confeccionados em madeiras, tecidos, pedras, metais, fibras, sementes, gesso, cerâmica, objetos antigos de cobre e bronze, telas e também alimentos artesanais, além de boa música e muita alegria. Pode-se afirmar que o Largo da Ordem sempre manteve sua função de aproximar os grupos étnicos, pois era o ponto de encontro dos imigrantes, colonos e colonas que vinham a cavalo ou de carroça para a cidade vender seus produtos, e que saciavam a sede dos seus animais no bebedouro do largo.

            São pontos relevantes relativos aos conteúdos colhidos sobre a imigração: as dificuldades com o aprendizado da língua portuguesa; os conflitos socioculturais; e a preservação da cultura e o sotaque curitibano. Os relatos sobre o período imigratório, seja os contados pelos descendentes de imigrantes europeus das primeiras gerações, como os dos imigrantes que vieram para o Brasil já no período pós 2ª Guerra Mundial (1939-1945), destacaram as dificuldades de compreensão e aprendizado do idioma português, o que promoveu muitos constrangimentos e conflitos entre as sociedades.

            A adaptação dos imigrantes também foi sofrida pois, além dos problemas com o idioma, sofreram o preconceito por serem estrangeiros e possuírem cultura própria em um país de cultura muito diferente.

            Inicialmente, a convivência entre as comunidades étnicas também foi marcada por conflitos que aos poucos foram sendo amenizados pela convivência com os curitibanos, que deram apoio e instruíram os imigrantes quanto aos costumes e o idioma português, e também os incentivaram a estabelecer suas próprias culturas.

            Atualmente, essas culturas permanecem vivas porque estão sendo “cuidadas” pelos membros mais antigos dos grupos étnicos, como um “alerta” às gerações mais jovens para se imbuírem no desejo de conservar e difundir cada vez mais as suas tradições culturais.

            As culturas afro-brasileiras naturalmente sempre fizeram parte da sociedade brasileira, Curitiba incluída, mas notadamente com mais visibilidade nos dias atuais, promovidas por meio de ações de difusão e preservação por instituições e movimentos socioculturais. Exemplos disso são notados, inclusive, pela interação da população curitibana e de turistas de um modo geral aos eventos de cunho religioso, como a “Lavagem da Escadaria da Igreja do Rosário”¹, no Largo da Ordem, antiga Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito, que vem sendo realizado nos últimos anos nas comemorações da Semana da Consciência Negra, em que religiosos de cultura afro-brasileira cumprem o rito de lavagem com água, flores, rezas e cantos ao som de atabaques.

                Durante as celebrações, também acontece uma feira especial para difundir os trabalhos de artesanato produzidos por membros das comunidades afrodescendentes – são oferecidos ainda cursos de artesanato e de instrumentos musicais de percussão, além de várias outras ações voltadas ao empreendedorismo, debates e discussões sobre temas de cidadania, direitos humanos, igualdade racial e inclusão de disciplinas de linguagens de raízes africanas no sistema educacional.

            Curitiba tem vários grupos e bandas musicais representativos da cultura afro-brasileira, que também buscam a preservação e a divulgação dos seus bens culturais e de sua história. Recentemente, a cidade acolheu imigrantes nigerianos, angolanos e haitianos, que também estão trazendo a língua pátria, sua cultura, arte e costumes (como “as boinas tricotadas e multicoloridas”), sua ginga e o jeito alegre. Sua adaptação ao modo curitibano de ser foi difícil no início, mas hoje corre de forma mais tranquila.