Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

OKSANA BORUSZENKO

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Imagem: Fernando Rodrigo Walenga Santos

O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos 

 

 

Oksana Boruszenko

Imigrante ucraniana

 

           Oksana é imigrante ucraniana e veio para o Brasil em 1949, no período pós 2ª Guerra Mundial. Tinha 10 anos de idade e chegou junto com o pai engenheiro civil, que tinha 50 anos, e sua mãe professora, de 42 anos. Para recomeçar a vida no Brasil, trouxeram na bagagem a quantia de cem dólares e os aparelhos de engenharia de seu pai.

            Apesar do pai ser engenheiro, a família entrou no Brasil como agricultores, pois nessa época só eram chamados para o país os imigrantes que pudessem colonizar as terras. Oksana conta que na Ucrânia muita gente fez curso rápido de agricultura para vir para o Brasil, pois a propaganda que era feita e os incentivos para que os colonos europeus imigrassem para o país eram muito fortes e encantadores diante da situação que se encontravam, passando por necessidades, sem terras para plantar – no Brasil, eles receberiam terras para colonizar e começar nova vida.  Ainda no século 19, as companhias italianas também fizeram propaganda do Brasil na Ucrânia, inclusive com cartas pessoais escritas por D. Pedro II em ucraniano, oferecendo terras para os colonos europeus.

           A imigrante disse que muitos vieram de forma equivocada para o Brasil, ou vieram por um erro de cálculo. Quando chegaram, foram colocados em terras ainda não desbravadas. Ela lembrou também que, quando chegaram no Rio de Janeiro, passaram por uma quarentena de 11 dias na Ilha das Flores, local destinado na época aos imigrantes e que, atualmente, é utilizado pelo exército brasileiro.

       A família veio para o sul do Paraná e ficou duas semanas em Marechal Mallet. Seu pai, no entanto, queria ir para a Santa Catarina, pois lá havia conhecidos e se falava a língua alemã. Um primo seu se formou em engenharia e propôs para seu pai uma sociedade na construção civil. Então foram para Apucarana, no norte do Paraná, fundada poucos anos antes e em franco desenvolvimento, com muitas possibilidades de trabalho.

 

Dificuldades com a língua e conflitos de comunicação

 

          O aprendizado da língua portuguesa foi bastante dramático para os primeiros imigrantes ucranianos que chegaram no Brasil. Em alguns casos, foram colocados de forma compacta nas colônias e interagiam pouco com a população local, o que acabou se transformando em um fator favorável para a preservação do idioma pátrio.

           A primeira geração sempre falou o português com sotaque estrangeiro. A segunda geração só aprendeu o português quando foi para a escola no primário – muitas crianças foram para a escola sem saber falar a língua portuguesa porque na comunidade só se falava a língua ucraniana.

          Aos poucos, foram perdendo o sotaque ucraniano, começando a pronunciar palavras com dois “R(s)”, como carroça, não com um “R” só como “caroça”, porque no vocabulário ucraniano não existem palavras compostas por dois “R(s)”. Foram aprendendo as expressões populares curitibanas já praticadas naquela época e muitos deles, por volta de 1928, já haviam concluído a instrução universitária.

        A família de Oksana não descende de agricultores e não foi morar nas colônias como a maioria dos imigrantes, morando sempre em cidades. Curitiba acabou sendo o porto seguro da imigrante, tanto que, anos mais tarde, ela recebeu o título de cidadania honorária.

          Ela atribui o rápido aprendizado da língua portuguesa, apesar do forte sotaque que então possuía, ao fato de a família estar sempre em contato com pessoas que falavam o português, diferentemente da situação das crianças que moravam nas colônias. No entanto, disse que sempre teve facilidade com o aprendizado de línguas – nos dois anos em que ficaram em Apucarana, ela aprendeu a língua portuguesa com muita tranquilidade, tanto na escola, na qual refez todo o primário, como brincando com as crianças. Fez exame de admissão e, em 1952, todos vieram para Curitiba e ela foi estudar no Colégio Estadual do Paraná, onde concluiu seus estudos. 

Oksana destacou ainda alguns fatos relativos à vinda dos imigrantes para o Paraná, particularmente os vindos para a região de Curitiba, o que ocorreu nas duas últimas décadas no século 19. A comunidade ucraniana é uma das mais antigas do Paraná, que a princípio recebeu também a imigração de italianos, alemães e poloneses, formando os quatro grandes grupos que vieram ao estado nesse período.

          Lembrou que o primeiro contato da família com a população local foi com os vizinhos, apesar de estarem localizados distantes uns dos outros, devido à distribuição de terras que havia sido feita; depois, quando começaram a trabalhar na construção das estradas. Também contou da dificuldade de comunicação dos imigrantes, tanto entre as comunidades, como em relação aos brasileiros, e da dificuldade em aprender o idioma português, principalmente em se fazer entender, sendo que muitas vezes “a mímica” era a forma comumente usada entre eles.

Oksana destacou um fato que dá a dimensão da dificuldade que os ucranianos encontraram para se comunicar. “Em certa ocasião, um brasileiro ofereceu o chimarrão para um ucraniano. Como estava muito quente, ele ficou sem saber o que fazer com a cuia em sua mão, ao que o brasileiro perguntou: 'Está muito quente?'. Imediatamente, o ucraniano jogou a cuia com a erva quente no chão, para espanto do brasileiro”. Ela explica que a pronúncia da palavra quente em português é próxima da de jogue em ucraniano.

 

Preservação da cultura ucraniana

 

          Quando começaram a surgir as primeiras gerações de imigrantes nascidos no Brasil, veio a preocupação dos mesmos preservarem a língua pátria e, ao mesmo tempo, a necessidade de aprenderem a língua portuguesa. Para resolver a questão sobre o ensino da língua pátria, foi necessário “importar” professores da Ucrânia – e, na medida que as crianças atingiram a idade escolar, foram para a escola brasileira para aprender o português.

Oksana disse que sua primeira língua é a ucraniana; a segunda é língua alemã, que aprendeu quando esteve no país após a 2ª Guerra Mundial; a terceira é língua portuguesa, hoje já quase a segunda.

       A língua doméstica sempre foi a ucraniana. Teve professores particulares de ucraniano e inclusive aprendeu o ucraniano literário, não o ucraniano da colônia. Mas ela ressalta uma ocasião em que foi para a Ucrânia, a convite do governo para trabalhar num projeto de levantamento da imigração¹, e causou espanto e surpresa à plateia quando deu uma palestra, pois seu modo de falar e se expressar na língua ucraniana era ultrapassado e ela foi considerada um fóssil linguístico.

          Oksana diz que, no Brasil, o idioma ucraniano é um tanto petrificado, com um vocabulário do final do século 19 e início do século 20. Na Ucrânia, hoje em dia, boa parte do vocabulário foi alterado, pois o idioma está em constante evolução como qualquer outra língua.

            Até os dias atuais, a comunidade ucraniana em Curitiba e Região Metropolitana promove ações para a preservação e difusão da língua pátria, ainda que não na mesma medida da época em que chegaram ao Brasil. É comum os membros dos grupos folclóricos irem para a Ucrânia fazer cursos de aperfeiçoamento, o que é uma das fortes razões para muitos jovens frequentarem os cursos promovidos para o aprendizado da língua ucraniana em várias instituições em Curitiba. A cultura tradicional ucraniana se mantém. A geração atualmente com 35 anos de idade pode até não falar muito bem o ucraniano, mas entende e conhece. A língua ucraniana é ensinada em vários locais em Curitiba, inclusive na Universidade Federal do Paraná. Além dos que fazem os cursos com fins de viagem, há os que concluem os oito períodos.

            A comunidade ucraniana no Paraná preserva suas tradições culturais, como as celebrações religiosas, o artesanato, o ensino da confecção e produção de Pêssankas, que são os ovos decorativos da Páscoa – a Pêssanka é um dos símbolos paranaenses. Cultuam também os bordados, as roupas ucranianos e a culinária, como famoso pastel cozido – Pierogui –, entre outros. Preservam suas músicas e suas danças através de vários grupos folclóricos.

            Os ucranianos preservam também as festas como o Natal e a Páscoa. Dentro das tradições ucranianas, na Páscoa, a Procissão do Senhor Morto não carrega uma imagem de Cristo e sim o Santo Sudário, e as consagrações à São Nicolau (nosso Papai Noel).

 

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Memorial Ucraniano de Curitiba

Imagem: Fernando Rodrigo Walenga Santos

 

Sotaque Curitibano

 

            Oksana lembrou com carinho do professor Mansur Guérios, que lhe disse certa vez: “polaquinha... você ainda vai falar o leite quente”. E assim foi, ele tirou seu sotaque de estrangeira.

            Ela fala o português com perfeição carregando um pouco o “L” em palavras como “normal” “especial” “legal”, puxando o L no final diferentemente do curitibano que transforma o “L” em “U”. Ela atribui essa característica ao fato do seu aprendizado do português em uma escola alemã mas com um professor de Moçambique, com fortíssimo sotaque de Portugal, e que também utilizava a pronúncia gutural dos “erres”. 

 

Contribuição econômica

 

            Os ucranianos introduziram no Paraná o cultivo do trigo sarraceno. As mulheres que imigraram trouxeram na viagem sementes variadas de grãos e flores amarradas nas barras das saias, para não ocupar espaço nas bagagens. Elas andavam com as saias pesadas com saquinhos pendurados de sementes de girassol, principalmente, e sementes de papoula, difíceis de se encontrar na época no Brasil, e que hoje podem ser vistas nos jardins das casas ucranianas, particularmente nas colônias espalhadas pelo Paraná.

            Além dos cereais, os ucranianos também mudaram a arquitetura no Brasil com as igrejas com “cebolinha branca”, além das casas brancas com janelas azuis e um jardim de girassóis na frente. Mudaram ainda a paisagem agrícola – a atual Colônia Marcelino, por exemplo, perto da Fazenda Rio Grande, que exporta camomila para a Holanda, não tem nenhuma casa de madeira, todas são de alvenaria, incluindo as garagens, e não tem mais nenhuma carroça, pelo contrário, há carros modernos e utilitários; no local, foi inaugurada uma nova igreja que é uma cópia idêntica de uma igreja da Ucrânia, um lugar de retiro e de peregrinação.

            Oksana citou outro episódio engraçado. Certa vez, trazia cogumelos dos Montes Carpados dentro de uma sacola de mão, pois os havia recebido no aeroporto de última hora de alguém para quem havia encomendado. Como esse tipo de cogumelo têm um cheiro muito forte, foi barrada na alfândega. Quando abriram a sua sacola, perguntaram se além de roupa suja tinha mais alguma coisa; ela disse que não e mandaram-na passar.

 

¹Oksana Boruszenko

Nasceu na Ucrânia, em 1939. Imigrou para o Brasil com os pais, em 1949, e vive em Curitiba desde 1952. Doutorou-se em História Eslava (História do Leste Europeu) pela Universidade de Munique, Alemanha, em 1972, onde defendeu tese sobre a “Integração dos Ucranianos no Brasil”, tendo recebido nota máxima – “Suma cum Laudae”. Durante 25 anos, foi professora dos cursos de graduação em História na Universidade Federal do Paraná. Foi também professora visitante da Universidade de San Clemente, de Buenos Aires; da Universidade de Manitoba, no Canadá; da Universidade de Munique; e da Universidade Columbia, em Nova Iorque. Continua integrando o corpo docente dos cursos de pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná, nos quais orientou 26 teses e onde formou pesquisadores na área de estudos da imigração. Professora visitante das Universidades de Lviv e Kiev, na Ucrânia, desde 1990, concentrou sua atividade científica nos estudos sobre imigração no Paraná, dando especial enfoque à imigração ucraniana. Nessa área, publicou 54 trabalhos no Brasil, Canadá, Alemanha, França, Estados Unidos e no seu país de origem, Ucrânia. Oksana Boruszenko foi a primeira pesquisadora a dedicar-se de modo sistemático ao estudo da imigração ucraniana no Paraná e a ela se deve a preservação de muitos arquivos históricos da comunidade, inclusive na Ucrânia. Graças a seus estudos e pesquisas, sabe-se hoje quem são os ucranianos e conhece-se a grande contribuição dessa comunidade ao desenvolvimento de Curitiba e do Paraná, bem como o seu quantitativo. É considerada pela comunidade acadêmica internacional uma das grandes especialistas em sua área de pesquisa. Prestou relevante contribuição ao desenvolvimento dos estudos eslavos no Brasil. Pelos trabalhos científicos desenvolvidos na área de sua especialidade, recebeu cidadania honorária em Winnipeg, capital da Província de Manitoba, no Canadá, e a Medalha de Honra ao Mérito da Ucrânia, bem como o Prêmio Cidade de Curitiba, da Câmara Municipal. Além do seu trabalho profissional, dedica-se à comunidade ucraniana, tendo sido presidente de sua Organização Feminina, vice-presidente da Confederação Mundial de Mulheres Ucranianas. No momento, integra a executiva da Representação Central Ucraniano-Brasileira, a entidade máxima da comunidade ucraniana no Brasil

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