Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

MOAFAK ADIB HELAIHEL

Moafak.png

Imagem: Fernando Rodrigo Walenga Santos

 

O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos 

 

MOAFAK DIB HELAIHEL

Imigrante libanês, 62 anos.

 

         Moafak veio do Líbano para o Brasil em 1979, com 23 anos. Ele contou sobre a imigração árabe ocorrida no Brasil ao final do século 19. Vários fatores históricos motivaram a vinda dos imigrantes, entre eles, a perseguição pelo Império Turco Otomano, a escassez de terra e as duas grandes guerras mundiais. A visita de D. Pedro II ao Oriente Médio, no final do século 19 (Egito, em 1872, e Líbano, em 1876), impulsionou a imigração.¹

       Inicialmente, instalaram-se em Paranaguá. Aos poucos, foram para outras cidades do Paraná como Ponta Grossa, Araucária, Lapa, Guarapuava, Londrina, Foz de Iguaçu e Curitiba, que abrigou a grande maioria dos imigrantes, os quais se dedicaram de forma expressiva no comércio. Entre eles vieram cristãos e muçulmanos da Síria e do Líbano. Apesar da dificuldade de falar o português e de se fazer entender, integraram-se rapidamente com a comunidade local.

        Existem relatos de que o primeiro imigrante árabe chegou ao Paraná em 1878. Após o primeiro período que chegaram por Paranaguá, os imigrantes começaram a chegar em Santos e daí seguiram para outras regiões do Brasil. O maior fluxo da imigração árabe em Curitiba ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, quando chegaram a constituir cerca de 10% da população.

 

¹“Este primeiro fluxo migratório foi impulsionado pela visita do imperador D. Pedro II em 1876, estreitando o relacionamento entre os países. Mas é preciso ponderar que, embora se reconheça a importância dessa visita, o Brasil continuava a ser uma terra praticamente desconhecida para os libaneses. Por esse motivo, os documentos históricos revelem que a maior parte dos imigrantes acreditava estar indo para os Estados Unidos e, ao desembarcarem nos portos de Santos ou do Rio de Janeiro, pensavam estar pisando em solo americano. Alguns não obtiveram o visto americano e julgaram que a entrada no Brasil seria menos difícil. Porém, havia também um grupo que veio ao Brasil estimulado pelos familiares que já tinham migrado para o país e encorajavam a vinda como forma de melhora de vida”.

https://www.infoescola.com/historia/imigracao-libanesa-no-brasil/Mayra Poubel, Graduada em História (UFF, 2017)Mestre em Sociologia e Antropologia (UFRJ, 2012), Graduada em Ciências Sociais (UERJ, 200?).

 

Dificuldades com a língua portuguesa

 

      Apesar de estar totalmente inserido na comunidade curitibana e lecionar tanto a língua árabe quanto o português, após 40 anos em Curitiba, Moafak ainda carrega um forte sotaque estrangeiro, o qual define como a dificuldade que sente (não só ele como os demais árabes no Brasil) em pronunciar os fonemas que são típicos da língua portuguesa –  no vocabulário árabe não existem palavras que são compostas de duas ou mais vogais e/ou consoantes juntas, pois usa-se uma vogal e uma consoante na formação das palavras, não mais que isso.

       Quando chegou no Brasil, Moafak não conhecia a língua portuguesa. Teve muitas dificuldades no aprendizado, uma vez que os membros da sua família e amigos, vindos anteriormente para Curitiba, ainda tinham muita dificuldade em se expressar em português. Ele revela que a língua francesa era muito utilizada no local onde morava no Líbano, o que facilitou um pouco o seu aprendizado e/ou compreensão da língua portuguesa, pois o francês é uma língua de origem latina.

       Inicialmente, sentia muita dificuldade em se expressar e se fazer entender, tanto que em alguns momentos se utilizava de gestos ou mímicas para que fosse compreendido. Somente com o passar do tempo foi conseguindo compreender a língua portuguesa, que considera um idioma de difícil aprendizado.

       Seu sotaque é fortemente identificado, apesar de pronunciar e utilizar nosso vocabulário com desenvoltura. Já seu filho, Farah Helaihel de Freitas, 27 anos, surpreendentemente, além de não ter herdado o sotaque do pai, fala o português com absoluta perfeição e com sotaque curitibano, adquirindo perfeitamente as gírias e expressões regionais curitibanas, pois nasceu e estudou na cidade.

 

Preservação da cultura

 

            As gerações mais jovens não têm interesse na preservação da língua pátria dos mais antigos, e esse fato se deve em parte às influências da cultura ocidental que exerce um fascínio sobre os jovens árabes, que acabam aderindo aos modismos naturais dos jovens brasileiros, não se dedicando inteiramente à cultura tradicional dos mais antigos.

            Pela percepção dessa evasão da cultura, membros da comunidade árabe e algumas instituições vêm promovendo ações num esforço de incentivá-los a compreender a importância da preservação da língua e dos costumes. Essa é uma das razões para que Moafak, superadas as dificuldades iniciais, tenha se aprimorado e se tornado professor da língua árabe para filhos de árabes que não aprenderam a língua, como também professor da língua portuguesa para os recém-chegados ao Brasil. Durante a entrevista, ele apresentou dois jovens, um egípcio e outro palestino que chegaram ao país a menos de um ano e que estão aprendendo a língua portuguesa com ele – os rapazes ainda não conseguem se comunicar direito em português.

            Moafak é artista plástico, calígrafo do idioma árabe, professor e escritor. Publicou um livro em português chamado “Caligrafia Árabe”, que aborda instrutivamente a arte da caligrafia árabe. É uma cultura tradicional que busca preservar e difundir entre os mais jovens.

            O professor lembrou que a introdução da cultura gastronômica árabe teve forte influência no Brasil, dos libaneses com seus temperos e condimentos que foram incorporados à comida brasileira, além dos quibes e esfirras que são muito apreciados. A preservação e difusão da comida árabe deu-se pela característica hospitaleira da comunidade árabe, associada à receptividade do povo brasileiro de um modo geral, que inseriu em seu cardápio o costume de consumir os pratos árabes, encontrados com abundância em Curitiba e nas demais regiões brasileiras.

            Os árabes também preservam no Brasil sua religiosidade, as artes em geral, suas danças por meio dos grupos folclóricos e as festas. Também apreciam a diversidade cultural encontrada em Curitiba.

            A loja de café de Moafak, no centro de Curitiba, na qual concedeu entrevista, é belamente decorada com arabescos árabes em tecidos, produtos alimentícios e utensílios para café decorados com riqueza de detalhes, tudo muito preservado.

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Livro Caligrafia Árabe, de Moafak Dib Helaihel,

Imagem: Fernando Rodrigo Walenga Santos

 

Sotaque curitibano

 

            Moafak não possui o sotaque curitibano ou do Paraná, pois já veio adulto para o Brasil e com formação universitária. Porém, conta que por causa da loja, que serve tanto o café árabe (do qual fez uma apresentação do preparo para os clientes) quanto o brasileiro, foi absorvendo algumas expressões regionais que são tipicamente curitibanas, inserindo em seu vocabulário a pronúncia com ênfase na vogal “e”, o que remete ao “café com leite quente” tão característico do sotaque curitibano.

 

 

 

 

 

 

 

 

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