Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

 LÚCIA WYRWANT

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

Lúcia Wyrwant

2ª geração de descendente de imigrantes ucranianos, e 1ª geração de descendente de poloneses, 75 anos

 

          A avó materna de Lúcia veio da Ucrânia com dez irmãos – ela se casou com 16 anos e teve dez filhos. Quando chegaram em Curitiba, vindos do Rio de Janeiro, foram alojados no Campo da Galícia¹, onde havia a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Os imigrantes se acomodaram em barracas até que as coisas se ajeitassem. Nesse local, houve um episódio de incêndio no qual várias barracas ficaram totalmente destruídas. Os imigrantes perderam muitos pertences, inclusive documentos, e isso causou inúmeros problemas, pois precisavam deles para conseguir trabalho.

            Eles aguardaram até que o governo distribuísse as terras. Os que tinham mais condições financeiras ficaram pela região central de Curitiba, muitos no entorno da Praça Tiradentes.

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Praca Tiradentes, 1900, Município de Curitiba

“Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimonio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba, Coleção Julia Wanderley

 

             As outras famílias foram enviadas para terras não desbravadas, muito distantes. Um desses lugares é onde hoje está localizada a Colônia Marcelino². Eles abriram caminhos com machados e picaretas e, aos poucos, foram levantando seus barracos. Um outro grupo de famílias foi enviado para terras ao redor das Usinas de Guaricana³ e de Chaminé, na região de Castelhanos, em São José dos Pinhais.

            Pela falta de condições de sobrevivência no local, foram mais tarde para a Colônia Marcelino. Lá, os imigrantes foram se ajeitando aos poucos e começaram a plantar tudo que precisavam para sua subsistência. Também iam vender o que colhiam na cidade em um lugar chamado Portão (porque havia um portão de fato na entrada), nome atual do bairro do local. Pela falta de dinheiro, quase sempre trocavam seus produtos por óleo e café e vendiam o que podiam. Iam de carroça de madrugada e voltavam no final do dia. Foram tempos bem difíceis.

 

¹Campo da Galícia – Os ucranianos vieram em massa em 1895. Estabeleceram-se no Campo da Galícia (hoje Praça 29 de Março, na região central e arredores) e foram expandindo suas propriedades ao longo da atual Avenida Cândido Hartmann e pelo bairro Bigorrilho. Sua influência é similar à dos poloneses e dos russos, em campos como a arquitetura (igrejas com cúpulas em forma de cebola, por exemplo), a culinária e a religiosidade.

Fonte: http://www.curitiba.pr.gov.br/idioma/portugues/curitibano

 

²A Colônia Marcelino reúne imigrantes ucranianos que cultivam as tradições de seu país de origem. Da gastronomia à religião, do folclore às construções, tudo traz um pouco da história da Ucrânia e de sua gente. Na Igreja da Santíssima Trindade, as missas são celebradas em ucraniano e acompanhadas com fervor pelos fiéis, que ainda preservam a língua do país de origem de seus pais e avós. A colônia é também o 2º maior produtor de camomila do Paraná e 3º do país, destacando-se na paisagem e deixando uma suave fragrância no ar. Sua área é de 2.642.600 m² e faz divisa com as localidades de Campestre, Faxina, Espigão, Rio Abaixo, Queimadas, Retiro e Colônia Matos, e com os municípios de Mandirituba e Fazenda Rio Grande. As primeiras famílias, vindas de Castelhanos, estabeleceram-se na Colônia Marcelino por volta de 1897, ato representado por um Cruzeiro edificado em 1899, agora substituído por outro de concreto e uma placa de mármore. O nome da colônia é uma homenagem ao antigo proprietário de toda a extensão de terras da localidade, o coronel Marcelino José Nogueira, que facilitou a venda de glebas aos imigrantes e descendentes de ucranianos e poloneses. Pertencendo à paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Curitiba, a comunidade foi fundada em 1902.

Fonte: http://giroemsaojosedospinhais.com.br/2015/10/09/colonia-marcelino-sao-jose-dos-pinhais/

 

³Usina de Guaricana – O)s primeiros ucranianos se instalaram na região de Castelhanos, onde seria construída a Usina Hidrelétrica de Guaricana, localizada no município de São José dos Pinhais. Devido às péssimas condições do solo, a mata fechada e a presença de animais selvagens, muitos dos imigrantes vieram a falecer naquele local e ali mesmo improvisaram um cemitério para os sepultamentos. Diante das dificuldades, direcionaram-se para regiões mais próximas da cidade, instalando-se mais tarde na Colônia Marcelino.

http://www.sjp.pr.gov.br/wp-content/uploads/2014/05/Relatorio1_LeituraRealidade_SJP_FinalDivulgacao_Low.pdf

 

            Os avós paternos de Lúcia vieram da Polônia com dois filhos – seu pai, com 16 anos de idade, e seu irmão mais novo. Desembarcaram no Rio de Janeiro em 1926 e de lá vieram para Curitiba. O avô, temeroso, não quis ir para as terras destinadas aos imigrantes que iriam trabalhar na lavoura, pois exercia o ofício de ferreiro e preferiu arriscar e ficar na cidade. Trabalhou na construção civil, na abertura de ruas e estradas. Ficaram por um tempo em alojamento providenciado pelo governo para os imigrantes poloneses, próximo ao Campo da Galícia, onde em sua maioria ficavam os imigrantes ucranianos quando chegavam. Permaneceram no local até que se reunisse condições de moradia. Sua avó trabalhava em casas de família na região central de Curitiba.

            Seu pai trabalhou como condutor dos bondes elétricos que circularam em Curitiba até o início da década de 1950.¹

¹Antonio Cesar de Almeida Santos – Memórias e Cidade: Depoimentos e Transformação urbana de Curitiba (1930-1990) 1995.

 

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Bonde em frente à Praça Tiradentes, 1915, Município de Curitiba

“Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimonio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba”, Coleção Julia Wanderley

 

Dificuldades com a língua portuguesa

 

            Os imigrantes tiveram a ajuda do Sr. Marcelino José Nogueira, que viabilizou para os imigrantes ucranianos e poloneses a aquisição de glebas de terrenos. Em sua homenagem, batizaram a Colônia¹ com o seu nome. Assim, começaram a se estruturar. Construíram uma igreja ucraniana, que recebeu um padre e algumas freiras responsáveis pela catequese e por dar aulas da língua “brasileira”. Aos poucos, as crianças foram aprendendo a falar o português, diferente dos mais velhos que aprenderam algumas coisas da língua pela convivência com os brasileiros.

 

 Herança das culturas ucraniana e polonesa

 

            O pai polonês de Lúcia aos poucos aderiu também à cultura ucraniana da esposa. Como as duas culturas são muito parecidas, Lúcia lembrou que ela e os irmãos foram educados transitando entre as duas raízes étnicas.

         Preservaram sua cultura religiosa e, no período da Páscoa, tradicionalmente produzem as Pêssankas¹, que são oferecidas como presentes, e o ritual da Benção dos Alimentos², além das comidas típicas e as artes manuais, principalmente os bordados ucranianos. Preservaram também sua música e sua dança representadas por vários grupos folclóricos.

            Lúcia disse que seus netos participam do Folclore Ucraniano e dos eventos culturais que são promovidos pela comunidade, estando sempre muito próximos das tradições culturais ucranianas e aprendendo o valor de se preservar a cultura trazida por seus antepassados. De um modo geral, a comunidade ucraniana de Curitiba preservou sua cultura. No entanto, ela lembrou que antigamente havia uma comemoração que normalmente acontecia no dia da Páscoa, à tarde. Dançavam a Ayulka, que era uma dança que todos participavam, muito alegre e festiva em comemoração ao Cristo ressuscitado.

            Ela lamenta que hoje muitas das culturas tradicionais estão se perdendo devido ao desinteresse das gerações mais recentes em preservar a cultura trazida pelos imigrantes. Como exemplo, disse que os jovens já não frequentam as missas com regularidade, preferindo ir somente em ocasiões especiais. Já nas artes e no artesanato – entre eles o bordado ucraniano, tão tradicional antigamente –, com algumas exceções, não há interesse em aprender devido a mudanças dos hábitos e dos costumes de um modo geral. Os jovens preferem as modernidades que as novas tecnologias oferecem. As primeiras gerações preservaram mais a gastronomia típica ucraniana; as gerações mais recentes apreciam, mas não têm muito interesse em aprender. “Com isso, vão se perdendo aos poucos nossos costumes”, lamenta Lúcia.

 

¹Pêssankas – As pêssankas (ou Pysanka ) são ovos coloridos inteiramente a mão pelos ucranianos, entregues na Páscoa sob os cumprimentos "Hréstos Voskrés" (Cristo ressuscitou) e "Voístenu Voskrés" (Em verdade ressuscitou). São utilizados ovos de qualquer tipo de ave, com a gema e a clara retiradas delicadamente através de uma seringa. A pintura sobre a casca do ovo é feita por etapas, não com tinta, mas com um conjunto de materiais que inclui vela, cera de abelha derretida, estilete e bico de pena. O ovo é mergulhado em uma sucessão de banhos de tingimento, a partir da mais leve, normalmente de cor amarela, e terminando com o mais escuro, normalmente preto. Entre cada imersão, a cera é aplicada em áreas onde a cor anterior deve permanecer. Depois de todo o projeto concluído, a cera é derretida e um esmalte duro é aplicado. Cera de abelhas é usada porque se mantém líquida mais tempo do que a parafina, é mais flexível, e tem uma qualidade de aderência; também, porque a apicultura era muito comum. Embora duas Pêssankas nunca sejam exatamente iguais, existem certos métodos de organizá-las em combinações variadas de cores e desenhos. Os desenhos ou motivos podem ser divididos em três categorias: geométrico, plantas e animais. Entre os motivos mais frequentes estão as figuras de animais (carneiros, antílopes, galos e peixes), elementos da natureza (flores, árvores, galhos, espigas de trigo e cachos de uva), triângulos, cruzes, sóis, estrelas e figuras geométricas. Alguns desenhos têm um sentido mais religioso, como são os casos do peixe, as espigas de trigo e cachos de uva, que são símbolos utilizados em várias manifestações cristãs. Fitas e faixas que circundam o óvulo sem começo nem fim simbolizam a eternidade. Triângulos simbolizam trios, como o círculo da vida de nascimento, vida, morte; da Santíssima Trindade, e os elementos naturais de fogo, ar e água. Estrelas simbolizam o crescimento e boa sorte. A cruz aparece em muitas formas e simboliza os quatro cantos do mundo, e o cristianismo.

Fonte: “Pêssankas: a arte em ovos de páscoa da Ucrânia” – Informativo Memorial da Imigração Ucraniana, Fundação Cultural de Curitiba, 2013.

 

²A Bênção das Paskas – Os ucranianos fazem o pão especial e ritualístico da Páscoa, que é enfeitado com ramos de trigo, folhas, flores, feitos com a própria massa, que são colocados em cestas juntamente com o Hrin preparado com raízes fortes com beterraba e outros alimentos. A cesta é lindamente decorada com as pêssankas e levada a igreja para receber a benção. Esses alimentos são consumidos pela família no dia da Páscoa.  Fonte: http://www.portaldafamilia.org/datas/pascoa/pessankas.shtml