Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

JÚLIA MARIA DORIGAN MATOS 

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos 

 

 

Júlia Maria Dorigan Matos

Descendente de portugueses

 

            Júlia é filha de portugueses, nascida no Brasil. É presidente da Sociedade Portuguesa, fundada em 1878 e foi criada para possibilitar o acolhimento aos portugueses que chegavam ao Brasil naquele momento, sem recursos e sem perspectivas de colocação no mercado de trabalho. Nesse mesmo período, outros grupos étnicos também criaram suas sociedades beneficentes pelas mesmas razões. No princípio, a sociedade era beneficente, tinha um acolhimento como hospital e não era tão cultural. Hoje, tem o intuito de ser uma sociedade cultural.

            No dia 1º de dezembro, é comemorado o Dia da Restauração da Independência de Portugal, também um feriado nacional português e uma data cívica. Para celebrar a data, a sociedade promove palestras com professores que estudam a cultura portuguesa e organiza ainda uma apresentação de fados e guitarra portuguesa, atividades que também contam com a presença do cônsul.

            Entre as atividades culturais da Sociedade Portuguesa, há um coral que se dedica às músicas e canções portuguesas, mas também prestigia as canções populares brasileiras. O coral se apresenta em Curitiba nos eventos de Natal e em eventos de entidades filantrópicas. A sociedade também mantém um grupo folclórico que está em reestruturação. No local, também é preservada a culinária portuguesa, com a organização de uma bacalhoada a cada dois meses, sendo apresentadas sempre receitas diferentes: Bacalhau à Brás, Bacalhau à Gomes de Sá, entre outras.

        Aos sábados, é realizado o Jogo da Sueca, tradicional recreação com cartas portuguesas no qual os membros, principalmente os mais velhos, se reúnem para relembrar Portugal, conversar e reencontrar os amigos e também ensinar aos mais jovens que têm interesse de aprender o jogo.

           Júlia contou que é muito difícil manter a cultura tradicional portuguesa, particularmente dentro da própria Sociedade Portuguesa, que não tem conseguido atrair os portugueses e seus filhos para suas atividades. Ela atribui esse afastamento da comunidade portuguesa de suas tradições ao fato de seus membros nunca se sentiram estranhos no Brasil, ou seja, não sentiam necessidade de buscar locais para se reunir com seus patrícios, diferente das outras etnias que precisam de um ponto de referência para se encontrar e matar as saudades da terra natal.

 

Conflitos de comunicação

 

            Júlia lembra que, já no primeiro momento da colonização no Brasil, os primeiros portugueses foram perdendo seu sotaque característico. Ela atribui isso a uma situação de conflitos de comunicação que exigiu dos portugueses uma mudança no seu modo de falar. Eles tiveram que ensinar sua língua para se comunicar os nativos indígenas, e esses tinham dificuldades no aprendizado.

            Dessa forma, os portugueses se obrigaram a falar de maneira pausada, pois precisavam se comunicar, e essa pode ter sido a primeira causa da perda do sotaque. Com o passar dos anos, essa perda foi se acentuando ainda mais devido à língua brasileira ter sofrido influências também dos espanhóis, alemães, ucranianos e de outras etnias que vieram para o Brasil, além da forte influência da língua indígena que sempre existiu. Tudo isso contribuiu para que os portugueses se distanciassem do verdadeiro o português de seu país natal.

 

Sociedade Portuguesa 1º de Dezembro

 

            A Sociedade Portuguesa acha muito importante a interação com as outras culturas, tanto que é filiada, desde a sua fundação, à Associação Interétnica do Paraná – Ainterpar. A questão étnica é muito forte em Curitiba, com vários grupos folclóricos – ucraniano, polonês, alemão, italiano – com os quais os portugueses interagem. A Sociedade Portuguesa também é parceira do Grupo Japonês de Espada Samurai, que utiliza os espaços para dar aulas para quem tiver interesse, não só para a comunidade japonesa.

            Júlia disse que essa mistura de raças é a essência do Brasil, algo também cultivado pelos portugueses. Essa interação é muito importante e, por isso, a sociedade abre seu espaço para a socialização de todas as culturas.

 

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