Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

 JOÃO WYRWANT

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

 

                João é imigrante, filho de pais poloneses, nascido na Alemanha em 1944, durante o período da 2ª Guerra Mundial, numa fazenda onde seus pais, assim como outros presos da guerra, foram levados para trabalhar. Ele contou sobre vários episódios vividos naquela época: seu pai exercia o ofício de ferreiro e outros serviços que lhe eram designados, e sua mãe tinha a responsabilidade de tirar o leite das vacas diariamente e ajudar em outros serviços; ela sempre lhe contava do medo que sentia dos bichos que rondavam a fazenda, que poderiam atacá-lo, porque quando ela estava trabalhando, ela o deixava enrolado numa coberta na grama. João lembrou também de soldados marchando e veículos de guerra, mas também das brincadeiras com as outras crianças que eram de várias origens, que lá estavam com seus pais e outros parentes.

           A ideia de imigrar surgiu quando foi lançada uma propaganda na Alemanha de que no Brasil estavam chamando colonos europeus para povoar terras e trabalhar na agricultura, e seus pais e tantos outros viram a possibilidade de sair da situação precária e temerária que se encontravam e mudar de vida. Conseguiram a liberação para imigrar e saíram da Alemanha. Após longas viagens de trem, embarcaram finalmente em um navio rumo ao Brasil, em 1949.

          João veio para o Brasil com 5 anos de idade e ainda traz algumas lembranças dos longos e exaustivos dias de viagem – a ansiedade pela expectativa da chegada só era amenizada pela presença dos amigos que vieram e das demais famílias. Conversavam muito enquanto ajudavam nas diversas tarefas de consertos e limpeza da embarcação, mas faziam o serviço com gosto porque não tiveram que pagar as despesas pela viagem. Sempre foram bem tratados pela tripulação e isso ajudava a passar o tempo. Ele contou que, durante a viagem, uma criança faleceu e foi respeitosamente velada e depois jogada ao mar. Lembrou que quando passaram pela linha do Equador, o navio jogava muito e ele passou mal. Seu pai então o levou para a cozinha, onde ganhou sorvete americano (muito gostoso lembra) e daí melhorou. Quando se aproximavam do Rio de Janeiro, muitas embarcações pequenas rodearam o navio e pediam que eles jogassem “coisas” para eles, o que acharam muito divertido porque nunca tinham visto algo parecido Quando desceram, ele se assustou porque a sua mãe recebeu uma “injeção de vacina” e desmaiou. João (rindo) lembrou que esse fato lhe causou um trauma por longos anos da sua vida, e só muito tempo depois de adulto perdeu o medo de agulhas.

            Chegando no Rio de Janeiro, foram enviados para Curitiba. João não tem lembrança de ter vindo de navio até Paranaguá como outros imigrantes, mas de ter vários ônibus que iriam para diversas regiões do Paraná e que falaram de Maringá. Quando chegaram na capital, ficaram abrigados numa hospedaria que ficava na região central, nas proximidades do Sesc da Esquina, provavelmente onde funciona desde 1905 a Sociedade Polono-Brasileira Marechal Pilsudski (Rua Des. Clotário Portugal, 68, no Centro). Ele disse que próximo ao local havia o “Largo da Galícia”, atualmente no bairro Bigorrilho, onde ficavam os imigrantes ucranianos.

A família ficou lá por algum tempo, até que seus pais reunissem condições financeiras de morar em outro lugar, o que aconteceu meses mais tarde, quando seu pai alugou uma casa no Bigorrilho – moraram no local até que o pai se aposentasse.

 

 

Dificuldades com a língua e conflitos de comunicação

 

               Nesse período, João já tinha idade escolar e precisava ingressar na escola, mas ainda não sabia falar o português. Brincava aos domingos com as outras crianças que iam na igreja onde a comunidade polonesa se encontrava; ali, se sentiam à vontade, conversaram e se ajudavam sempre que podiam. Naquela época, recém-chegados, os adultos e crianças só falavam em polonês.

             Quanto à escola, ele lembra que no primeiro dia de aula estava em pânico e não queria ir. Mas os pais eram muito “convincentes” com um chinelo na mão. Tal como pressentia, foi um desastre. Matriculado no 1º ano, ele logicamente não conseguiu acompanhar o ritmo das outras crianças e foi “devolvido” para a pré-escola para iniciar a alfabetização. Depois, voltou de fato para o primeiro ano. Ia bem em todas as matérias, mas o português para ele era um pesadelo. Conhecia as letras, mas não conseguia pronunciar os fonemas e formar as sílabas, a dificuldade de articular as vogais (às vezes mais que uma nas palavras) e as consoantes emendadas era muito grande. Aos poucos, foi melhorando e começou a ensinar os próprios pais em casa, que mantinham ainda a mesma dificuldade. Sua mãe, por ter ido trabalhar em casas de família, aprendeu um pouco o idioma. Mas seu pai, apesar da ajuda, ainda se atrapalhava bastante, misturando tudo, e nunca aprendeu a falar o português corretamente. João ainda apresenta um pouco de dificuldade ao pronunciar algumas sílabas, ou enrola a língua ou engole as letras. Fala um português bem carregado com sotaque estrangeiro.