Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

FLORÊNCIO FERNANDES

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

 

FLORÊNCIO REKAYG FERNANDES

Etnia – Povo Kaingang.

 

            Florêncio é do povo Kaingang, da marca Kamé, listrada, que é um das clãs que divide o povo Kaingang natural da TI de Rio das Cobras, em Nova Laranjeiras (PR). Pedagogo de formação, mestre em educação e doutorando na área de Antropologia, atualmente, é o diretor da Escola Estadual Emília Jerá Poty, da Aldeia Tupã Nhe’é Kretã, localizada em Morretes, na divisa com São José dos Pinhais, ambas cidades paranaenses.

            Ele contou que aprendeu a língua materna kaingang na escola de sua aldeia, na qual fez a pré-escola e a 1ª série com um professor bilíngue formado no Rio Grande do Sul. O contato com a língua portuguesa veio a partir da 2ª série com uma professora da Funai (Fundação Nacional do Índio), que ministrava as aulas das disciplinas normais do currículo escolar. Seguiu até a 4ª série com a pronúncia do idioma ainda insatisfatória. Mas não havia ensino depois dessa série na aldeia e Florêncio saiu de lá para continuar seus estudos – muitos dos seus colegas da aldeia desistiram e não seguiram estudando.

            A discriminação e o preconceito foram dificuldades nessa época, pois praticamente só falava a língua indígena e muito pouco o português, e assim não compreendia o que os professores ensinavam no primeiro ano de estudo fora da aldeia. Pensou em desistir, mas seus pais o orientaram sobre o valor de aprender uma outra língua, o que seria importante para ajudar seu povo nas lutas que enfrentavam por seus direitos, como o da legitimação da língua indígena na grade escolar, e também para avançar nos estudos, formar-se e ser um profissional. Depois do português, Florêncio também aprendeu inglês e espanhol, línguas em que também é fluente.

            Hoje, a grade curricular da escola de sua aldeia atende dois povos indígenas, os Kaingangues e os Guaranis, e a proposta política pedagógica é adequada à realidade dos índios – além dos idiomas indígenas e o português, o currículo também contempla as disciplinas de Ciências, Matemática, História e Geografia. Mas como ainda são poucos os professores indígenas formados pela aldeia, são necessários professores de outras regiões para ministrar as aulas tanto da língua indígena como das demais disciplinas.

            O guarani é a principal língua de comunicação atualmente na Aldeia Tupã, mas o português também vem prevalecendo, principalmente em relação às crianças, que estão desenvolvendo os idiomas indígenas e o português nas formas oral e escrita. Isso irá contribuir para que, no futuro, possam se tornar futuros professores ou outros profissionais como médicos e agrônomos.

            Florêncio lembrou que pessoas observam que ele não carrega mais o sotaque indígena, pois necessita falar o português corretamente em função da comunicação no seu ambiente de trabalho. Mas ainda fala a língua indígena, principalmente quando vai visitar seus pais em sua aldeia, juntamente com seus filhos. Lá, a língua kaingang já está mais aportuguesada, não é mais uma língua pura como antigamente, diferente daquela mais tradicional, falada pelos indígenas que vivem mais isolados da população urbana – na aldeia, são usadas muitas palavras em português.

            Ele destacou que muitas pessoas falam que, para o indígena que fala bem o português, o kaigang se torna mais bonito, mais suave, porque o idioma puro é falado num tom mais baixo, mais lento e mais compreensível. Isso é desenvolvido utilizando-se as duas línguas, diferente da maneira usual que os indígenas falam entre si. Essas nuances dos linguajares têm sido transmitidas para as crianças indígenas até para haver uma dedicação maior delas em desenvolver o português e, dessa forma, preparar o aluno para que possa ter condições de acessar os diversos cursos existentes fora da aldeia. Porém, tudo é feito sem deixar de lado a língua indígena, pois o objetivo também é manter a cultura e a língua tradicionais.

 

 

Preservação da cultura

            Florêncio contou que rotineiramente sua aldeia recebe a visita de algumas famílias vindas de várias regiões do Paraná e de outros estados. Ficam por algum tempo lá e depois voltam para suas origens, muitas vezes por causa do clima frio e úmido da serra e do acesso ao local.

            Os membros da aldeia não gostam muito de ir para as cidades, mas algumas vezes vão para vender artesanato. Por uma questão cultural, normalmente é um dos homens da aldeia o responsável por comprar os mantimentos, roupas, calçados e outros itens de necessidade da comunidade – por causa das tradições e até mesmo pela dificuldade na própria comunicação, dificilmente as mulheres da cultura guarani se deslocam para a cidade.

            Florêncio conversa muito com os kaingangues nos municípios que visita. Às vezes, contou ele, que quando ele está de carro e encontra os indígenas que estão nas ruas vendendo artesanato, ele acena e cumprimenta eles na língua indígena, e eles ficam espantados por ele estar dirigindo um carro. Eles respondem, mas com aquela cara: será que é índio ou não?”

            Em Curitiba, ele percebe que as crianças artesãs e artistas kaigangues usam uma fala decorada em português quando vão fazer o comércio de seus produtos. Ele também já foi artesão e vendedor de artesanato nos semáforos, e também passou por isso, e contou que sua mãe ainda vende produtos indígenas lá na região onde mora e que também usa frases decoradas, pois não sabe falar a língua portuguesa. “Antes de eu entender e falar o português, minha mãe me treinava e dizia “ólha”, o preço desse artesanato é R$ 10, então você vai falar só R$ 10. Às vezes, alguém falava que daria R$ 30 e eu dizia não, eu quero só R$10'”, revelou, lembrando que poderia ter lucrado se soubesse o português, mas não era esse o ensinamento que recebera da mãe.

            Florêncio lembrou que a língua é uma forma de identidade do seu povo e que procura passar isso para os jovens e crianças de sua aldeia, pois é uma questão de valorização, do orgulho identitário, de ter orgulho de ser o que se é. Ele disse que nas atividades culturais escolares desenvolvidas na comunidade, ainda são encontradas algumas dificuldades em se utilizar a escrita ou o registro em papel, pois muito ainda é transmitido oralmente e depende da cultura de cada participante – os kaigangues procuram registrar a língua escrita por meio de histórias, para que ela possa ser desenvolvida dentro da escola.

            Ele destacou também que a cultura está em torno de todos, não só na aldeia. Quando os indígenas saem da aldeia e vão para a cidade, já tomam contato com uma outra cultura que não é deles; eles respeitam essa cultura e esperam que as pessoas que vão visitar sua aldeia também possam observar e participar – esse é o objetivo da Aldeia Tupã. Florêncio lembrou que o próprio Cacique da aldeia pede para que todos valorizem muito a questão dos rituais, pois é raro encontrar uma aldeia com comunidades de diferentes etnias (Kaingang e Guarani) e todos convivendo no mesmo espaço, exercendo sua cultura e língua própria.

            O povo da Aldeia Tupã trabalha muito a cultura do respeito ao próximo. Florêncio, mesmo sendo da etnia Kaigang, participa dos rituais na “Casa de Reza Guarani” a “Opy”, assim como os Guaranis participam também das atividades dos kaigangues – algumas atividades esportivas requerem a participação de todos e o Cacique pede para que tenham esse convívio, apesar das diferenças em suas manifestações culturais.

            Esse pensamento também é passado aos profissionais que atuam na aldeia, para que conheçam mais a cultura, pesquisem, escrevam e participem dos eventos locais, bem como para que possam conhecer e entender melhor a criança indígena. Tal processo se faz necessário pois algumas crianças ainda têm dificuldade no português visto que o processo de aprendizado ainda é lento atualmente, mas é preciso acelerá-lo um pouco dada a necessidade de dar conta do sistema do governo do estado com relação ao registro de todos os materiais e de tudo que acontece que na escola.

            Florêncio sempre lembra as crianças indígenas de que elas serão os futuros profissionais da aldeia, assumindo cargos nela assim como ele – foi o terceiro indígena a assumir a direção de uma das 39 escolas indígenas existentes no Paraná. “Ainda há muito que avançar, então procuramos mostrar às crianças essa realidade, até para elas terem e nutrirem uma expectativa de futuro. A cultura é interessante e deve ser trabalhada. É preciso que as crianças também estudem a cultura de outros povos que estão ao nosso redor, pois só assim conseguirão entender e valorizar a deles”, disse.

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