Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

FLORA MADALOSSO

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

 

         Flora, 78 anos, é filha de Antonio Domingos Madalosso e Rosa Fadanelli Madalosso, nascidos numa cidade muito pequena, próxima a Caxias, no Rio Grande do Sul. É neta de imigrantes italianos vindos em um vapor que saiu da Itália, ao final da segunda metade do século 19.

            Seus avós maternos, com 18 e 20 anos de idade, vieram para o Brasil com seus familiares. Seu avô é oriundo de uma comunidade italiana da região de Vêneto, chamada de Feltre, na província de Belluno, e sua avó da província italiana Tirol, de onde herdaram o dialeto tirolês.

            Ela contou e relembrou o período em que seus pais trabalham na lavoura com a plantação e cultivo de parreiras, e que sua mãe, quando iniciavam a colheita, pegava uma mula preta e uma balança velha trazida da Itália e saia para vender nas redondezas.

 

Aprendizado da língua portuguesa

 

            Flora não sabia falar o “brasileiro”, como se referiam ao português na época, e encontravam uma grande dificuldade na comunicação com os brasileiros. Naquela época, as crianças iam para as escolas, porém, tinham muita dificuldade em aprender o português.

            Ela lembrou que sua mãe sempre contava histórias sobre as dificuldades do aprendizado da língua portuguesa. Na escola que frequentava, a professora praticamente só falava o italiano, não compreendia o português e, por causa disso, acabaram se concentrando mais no aprendizado da aritmética, que era importante porque precisavam saber a tabuada e fazer as contas para ajudar no pequeno comércio familiar que criaram com a venda das uvas.

            Mais tarde, quando Getúlio Vargas implantou a Campanha de Nacionalização (1937-1945)¹, que foi agravada com a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial, foi determinado que os professores deveriam obrigatoriamente ser brasileiros natos ou naturalizados, com as aulas ministradas unicamente em português. Ficou então proibido o ensino de outras línguas estrangeiras nas escolas. Após a proibição, a professora, que tinha por volta de 15 anos, nunca mais falou o idioma italiano. Mais tarde, quando aprendeu a língua portuguesa, voltou a lecionar.

            Ainda devido à proibição, o pai de Flora sempre alertava sua mãe para se cuidar. Ela saía para vender as uvas sempre com muito medo que alguém a “obrigasse” a falar o “brasileiro”. Como não sabia, poderia ser presa. À noite, o pai a ensinava a Flora o pouco que sabia do português e lia para ela as matérias de um jornal da época chamado “Colônia”, do qual foi um dos fundadores.

            Em 1949, o pai vendeu o terreno que tinham em Caxias do Sul, devido às dificuldades. Com a orientação e ajuda de um irmão que morava em Ponta Grossa, vieram em busca de terras em Curitiba. Quando chegaram na cidade, o seu irmão disse que uma senhora, que se chamava Felicidade Borges², estava vendendo terrenos para os imigrantes italianos de forma bem facilitada. Assim como outras famílias italianas da época, o pai adquiriu um terreno de 28 mil m² que pertence até hoje à família.

            O único pedido que Felicidade havia feito às 14 famílias que adquiriram os lotes foi que construíssem uma igreja em um dos terrenos, doado por ela para este fim. A igreja foi construída e, apesar de São José ser o santo padroeiro dos imigrantes italianos, foi batizada com o nome da Santa Felicidade, assim como o bairro. Foram ouvidas muitas histórias sobre Felicidade, que ora doava as terras, ora as vendia de forma bem facilitada para os imigrantes, mas é unânime a declaração de que ajudou significativamente os imigrantes italianos e que o nome do bairro é em sua justa homenagem.

Inauguração da Igreja da Colonia Santa Felicidade, 1905, Município de Curitiba

“Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimonio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba”, Coleção Julia Wanderley

 

¹ Novamente uma mesma questão já citada no depoimento da Ursula Marianne Simons, sobre a proibição aos imigrantes de falarem a língua pátria devido à Campanha de Nacionalização (1937-1945) implantada austeramente por Getúlio Vargas. Entre outras coisas, foi determinado que os professores deveriam obrigatoriamente ser brasileiros natos ou naturalizados e que as aulas deveriam ser ministradas unicamente em português. Ficou então proibido o ensino de outras línguas estrangeiras nas escolas. 

 

Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_de_nacionaliza; http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/um-processo-cultural-forcado, Valquiria Velasco, Graduada em História (UVA-RJ, 2014); https://www.infoescola.com/historia/campanha-de-nacionalizacao.

² Felicidade Borges

1. O bairro teve início no antigo caminho que ligava a capital ao norte velho do estado e que, na atualidade, é chamado de Estrada do Cerne. Em sua formação histórica, recebeu um grande número de colonos vindos do norte da Itália, especialmente das regiões de Vêneto e Trento.

O nome do bairro é uma homenagem a uma antiga proprietária de terras da região no século 19, a portuguesa Felicidade Borges (que provavelmente foi batizada em homenagem a Santa Felicidade).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Santa_Felicidade_(Curitiba)

 

2. Com a abolição da escravatura e a independência do Brasil, a mão-de-obra se tornou escassa e faltava quem povoasse o sul do país. O Governo do Estado do Paraná decidiu então incentivar a imigração doando terras para os imigrantes, conseguindo assim mão-de-obra assalariada e produção de gêneros alimentícios em larga escala. Os italianos chegaram em Curitiba no ano de 1872, oriundos da região do Vêneto. As terras destinadas a eles, inicialmente, foram terras no litoral. No começo, o calor era agradável, a vegetação era de um verde que eles nunca tinham visto, o ar era delicioso, diferente do ar gelado de sua terra natal, e a vida dura era amenizada pelos sonhos trazidos na mala e pela vontade de vencer. Mas o solo era ruim para agricultura e o calor intenso, por tantos meses seguidos, os deixava exaustos. Parecia que seria fácil, mas não era. A nostalgia da terra amada e distante os desanimava cada dia mais. Não era fácil pensar em tudo o que tinham deixado para trás, não era fácil esquecer a família reunida ao redor da mesa, dos passeios pelos vinhedos ou pelas ruas de pedra da romântica Verona, ou das águas impressionantes de Veneza. Não era fácil esquecer tanta beleza. Não era fácil suportar uma vida tão dura quando os sonhos pareciam se quebrar em suas mãos. A solução foi trazida pelo vento. Corriam vozes que uma senhora viúva gostaria de trocar parte de suas terras no planalto por terras num local quente, por questões saúde. As terras se localizavam no noroeste da cidade e a senhora viúva se chamava Felicidade Borges. 

Fonte: http://www.partiucuritiba.com/bairro-de-santa-felicidade/

 

            Flora se casou em 1963, aos 19 anos de idade, com Admar Bertolli, que era leiteiro e morava em outro bairro de Curitiba. Ela conta que teve de enfrentar a família, que era contra o namoro. Mais tarde, Admar nutriu interesse em comprar um restaurante pequeno que ficava do outro lado da rua onde moravam – era chamado de Flórida e acomodava apenas 24 lugares. O dono, um gaúcho, se interessou em vender. Admar convenceu o seu pai para reunirem recursos para realizar a compra e ele vendeu um pedaço do seu terreno. Com o dinheiro pagaram as dívidas e compraram o restaurante, que reabriram em 1964 com o nome de Restaurante Madalosso, em homenagem ao seu pai.

            Com muita determinação e perseverança e esforço de toda a família, foram vencendo os obstáculos e obtiveram o sucesso almejado.

            Flora disse que, desde de criança, só a língua italiana era falada na sua família, mais precisamente o dialeto tirolês, o que de certa forma prejudicou o aprendizado da língua portuguesa, pois não sentiam necessidade dela. Quando foi para a escola, estranhou o idioma e teve muita dificuldade para aprender.

            Por essa razão, ela e o marido decidiram que só conversariam com seus filhos em português. Assim, não encontrariam tanta dificuldade na escola, como os pais, e também porque dependeriam da língua no futuro.

            Flora fala e compreende bem o português e lembrou que vê muita diferença entre seu sotaque e o dos seus filhos e netos, pois ainda carrega um forte sotaque estrangeiro –  às vezes, mistura e inclui palavras em italiano em meio a fala em língua portuguesa.

 

Preservação da cultura

 

            Os membros da família de Flora das gerações mais antigas falam com muita fluência e rotineiramente o italiano entre eles. Preservaram não só a língua pátria como outras culturas tradicionais, principalmente a culinária que, no caso de Flora, é o seu forte – ainda está à frente da cozinha do seu restaurante, assim como alguns membros da família. Preservaram também sua música e dança através do seu folclore, as festas comemorativas e também a religiosidade.

            As novas gerações foram crescendo e estudando em escolas de língua portuguesa em Curitiba e não aprenderam a língua italiana.

 

Sotaque curitibano

 

            Os membros das novas gerações da família, já bastante miscigenada, não apresentam em seu modo de falar e se expressar o sotaque estrangeiro italiano, ainda que Flora, seus irmãos e primos ainda falem no âmbito familiar o dialeto tirolês. Naturalmente, eles foram absorvendo e se integrando ao vocabulário regional curitibano e ao sotaque e perderam um pouco o interesse em aprender a língua dos seus antepassados. Flora procura de maneira quase lúdica ensinar os filhos e netos a língua italiana, como forma de preservação da cultura, mas quase sempre conversa com eles em português.

            Ela conta que mesmo que os mais jovens da família e seus amigos, também descendentes, não falem a língua italiana, conseguem compreendê-la e interagir nas conversas familiares que são, de um modo geral, muito acaloradas e barulhentas.

            Marlus Bertolli, 32 anos, neto de Flora e descendente de 5ª geração de imigrantes italianos e japoneses, é um exemplo. Não fala a língua italiana, mas consegue entender as conversas e se lamenta por não ter aprendido quando criança, pois hoje compreende a importância de se preservar essa herança cultural. Ele aprecia muito a comida típica italiana, particularmente a que sua avó prepara, e também as diversas manifestações culturais da comunidade.

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