Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

 YAGUNÃ DALZIRA

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

 

Dalzira Maria Aparecida

Etnia: descendente de africanos de origem da Nação Iorubá, 76 anos

 

Iyagunã Dalzira, descendente de origem africana da nação Iorubá, nasceu em Minas Gerais. Ela tinha dois anos de idade quando sua família emigrou para São Paulo e depois para o norte do Paraná, na cidade de Santa Mariana. Quando tinha 27 anos de idade, toda todos se estabeleceram em Curitiba.

            Com esforço e dedicação, ela graduou-se e pós-graduou-se em Relações Internacionais, e depois concluiu seu mestrado em 2013, na Universidade Técnica Federal do Paraná (UTFPR), com a dissertação intitulada “Templo religioso, natureza e os avanços tecnológicos: os saberes do Candomblé na contemporaneidade”.

            Seus pais pouco sabiam do paradeiro dos antigos familiares que vieram para o Brasil, que pelas circunstâncias da imigração dos africanos naquela época, foram na grande maioria separados e enviados a várias regiões do Brasil, um lamento triste na história do país.

 

Aprendizado da língua portuguesa

            Apesar de ter nascido e ter sido criada dentro das raízes da cultura africana, em que toda a sua família falava a língua Iorubá, Iyagunã Dalzira aprendeu a língua portuguesa e sua pronúncia é totalmente correta, sem interferência do idioma doméstico, assim como os demais membros da família.

Preservação da cultura

            Iyagunã Dalzira sentia muita preocupação em relação à preservação da cultura africana, mais especificamente quanto às possíveis influências e efeitos advindos dos avanços tecnológicos aplicados, especificamente a internet, nas articulações da condução religiosa, por meio das ações dos seus representantes.

            Essa preocupação levou à escolha do tema da sua pesquisa de mestrado, com a proposta de constatar a relação entre o candomblé e a internet em três terreiros de nações africanas diferentes: Ketu, Gêge e Bantu. A análise considerou como se articula a religião no que se refere à natureza e aos valores, e aos saberes ancestrais frente aos avanços tecnológicos. E também analisou os impactos da urbanização e da perda territorial, além da importância da preservação da linguagem e a oralidade nos terreiros de candomblé. O objetivo maior do trabalho foi trazer uma discussão permanente e necessária sobre a intolerância religiosa e “estado laico”.

            Para ela, esta é uma luta constante, não somente nas questões legais, mas também é necessário que exista a vontade da própria comunidade religiosa em transmitir as línguas de origem de cada nação, principalmente aos membros mais jovens. Por outro lado, é importante que os membros dessas comunidades, crianças, jovens ou adultos, se conscientizem da importância da preservação da sua cultura.

            Em sua casa, ou no seu Ilê, Iyagunã Dalzira procura transmitir aos seu filhos e simpatizantes a cultura da nação Iorubá, principalmente a sua língua. Além da preservação da cultura religiosa, ela falou principalmente sobre as palavras que são de origem africana e que foram apropriadas pelo vocabulário brasileiro, como: bagunça, curinga, moleque, cachimbo, fubá, macaco, quitanda, jabá, cachaça, dendê, fuxico, berimbau, quitute, quiabo, senzala, corcunda, batucada, bafafá, molambento, moribundo, entre outras.

            Falou ainda sobre a comida africana, que é tradicional na culinária brasileira. A feijoada como conhecemos nasceu nas senzalas: os negros aproveitavam as sobras do porco, que eram jogadas fora porque não eram consumidas nas cozinhas das fazendas; pegavam as orelhas, os pés, partes das costelas e de gordura do porco e juntavam muito tempero e feijão. Além da feijoada, muitas outras comidas são consumidas pelos brasileiros que tem origem africana, como: vatapá, caruru, angú ou pirão, carne com legumes, rapadura, acarajé, além dos temperos e do dendê.

 

Instrumentos Musicais

            Vários instrumentos musicais têm suas origens na África, como os atabaques (Ilu, Rumpi e Le), o tambor, o adjá e o agogô, que são instrumentos ritualísticos, mas que também foram incorporados à cultura musical de um modo geral, assim como a cuíca, a rebeca e o reco-reco.

 

      

Atabaques / Wikimedia commons – Thomas Quine

 

            Outro instrumento interessante citado por Iyagunã Dalzira citou é a macumba. “Na cultura brasileira, acham que é feitiço, mas a macumba é um instrumento e quem o toca é o macumbeiro. Não sei de onde veio o pensamento de que o povo de terreiro é macumbeiro”, relatou.

Wimimedia Commons- Foto MissyMeaow2015

Macumba

 

            A marimba é um instrumento de difícil execução que Iyagunã Dalzira conheceu em Cuiabá, no Mato Grosso, mas já viu sendo tocado no sul do Brasil. Ela lembrou e disse que é preciso muita força nas mãos para tocar a marimba, pois é tirado de som de uma caixinha com pequenas madeiras. Em Minas Gerais, costuma-se dizer que nem todo mundo aguenta a marimba.

Wikimedia Commons – Foto de David C.S.

Marimba

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