Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

CARLA DA LUIZA VARGAS MARCONDES

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

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Zilá Maria Walenga Santos 

 

Carla da Luiza Vargas Marcondes

Descendente de portugueses

 

           Carla é bisneta de portugueses. Sua bisavó, Maria José Ferreira, nasceu e cresceu em uma cidadezinha chamada Leiria, próximo a cidade de Fátima. Em maio de 1917, ainda menina, com 16 anos de idade, teve o privilégio de viver e ver a aparição de Nossa Senhora de Fátima. Segundo relatou aos netos e bisnetos, foi um dia muito especial. Ela disse que não enxergava nada, somente uma nuvem em cima de um pé de azinheira, mas os pastorinhos falavam a todos que era a Nossa Senhora que estavam vendo, a qual pedia a todas as mães que aguardassem e não ficassem preocupadas pois, dentro de 18 dias, os seus filhos e maridos retornariam da guerra. “Muitos questionavam se era verdadeira a aparição e, para não haver dúvidas, Nossa Senhora simplesmente fez o milagre do Sol, que girava em espiral no céu. E muitos na época achavam que o mundo iria acabar por conta desse fenômeno”, contou Maria Ferreira aos netos e bisnetos.

       Nesse período, Maria Ferreira vendia em frente à igreja “um quarteirão de cerejas” (25 unidades). O dinheiro arrecadado era para preparar seu enxoval, pois naquela época não havia roupas compradas, todos compravam tecido e faziam roupas costuradas à mão, e assim ela fez o seu tão sonhado vestido de noiva – Maria Ferreira casou-se com Joaquim em 1926. A bisneta Carla lembrou que em Portugal era tradição as “senhorinhas ricas” se casarem vestidas de branco e as “senhorinhas pobres” de preto.

 

Na Sociedade Portuguesa 1º de Dezembro

 

            Carla relatou que, apesar de ser bisneta de portugueses, não herdou a língua pátria de seus avós e que, atualmente, na família, bem poucos ainda falam com sotaque. Sua bisavó, mãe e tios falavam perfeitamente com sotaque de Portugal, então já era familiarizada com o idioma. Mas, com o passar do tempo, isso se perdeu e só reencontrou o sotaque português na Sociedade Portuguesa 1º de Dezembro. Há dez anos, quando iniciou suas atividades na sociedade, sentiu muita dificuldade de entender o que os membros falavam, porque existem algumas diferenças entre os vocabulários do Brasil e de Portugal – palavras e expressões têm significados diferentes nos dois países –  e também porque os portugueses falam muito rápido, dificultando ainda mais a compreensão.

        Por isso, ela conversou com os membros imigrantes e também os mais antigos da sociedade, que já são descendentes, para falarem mais devagar e assim melhor compreendê-los. Levou algum tempo para afinar seus ouvidos aos novos tons, mas hoje ela também faz o papel de intérprete para os não portugueses que visitam a sociedade.

 

Preservação da cultura

 

            Carla disse que os portugueses no Brasil preservam as reuniões familiares nas comemorações religiosas como a Páscoa e o Natal. Nessas ocasiões, sempre são preparadas as comidas portuguesas, sem faltar, claro, a bacalhoada com um bom vinho. Ela lembrou que os portugueses são um dos um dos povos mais católicos do mundo e que sua família aprendeu com a bisavó e com os avós a “guardar o Dia Santo, guardar a Sexta Santa e guardar o Sábado Santo” porque é uma tradição que veio de Portugal.

            Ela ainda destacou algumas diferenças entre os vocabulários de Portugal e do Brasil: “caçarola” para os portugueses é uma panela alta com pegadores e de pressão e para os brasileiros é apenas uma panela de pressão; “cartucho” em Portugal é um saco de papelão e no Brasil uma embalagem”; entre outras palavras.

 

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