Nesse site são apresentados trechos do depoimento individual de personagens, que não foram contemplados no DVD e/ou no documentário, parte integrante do PROJETO "SULTAQUE - IDENTIDADE CULTURAL - SOTAQUE CURITIBANO"

 

 

BELEM BORTOLLO TULIO

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O texto a seguir foi  publicado originalmente no livro "Sultaque - Identidade Cultural - Sotaque Curitibano"

Todos os direitos reservados. Autorizada a cópia de parte ou totalidade da obra desde que citada a fonte.

 

Zilá Maria Walenga Santos

 

 

BELEM BORTOLLO TÚLIO

1ª geração de descendente de imigrantes italianos, 74 anos

 

 

            Belem, 74 anos, é nascido em Curitiba e descendente da 2ª geração de imigrantes vindos da Itália no final do século 19. Seu avô paterno, então com 8 anos de idade, e o avô materno, com 12 anos, vieram diretamente da Itália com seus familiares para Paranaguá.

            Ao desembarcarem na cidade do litoral, todos foram orientados a ir para Morretes. Seguiram os carreiros na mata até que chegaram no destino. Alguns ficaram na cidade e trabalharam na construção da estrada de ferro Paranaguá-Curitiba, outros subiram em direção ao planalto, abrindo carreiros na mata. Quem ficou em Morretes acabou depois fugindo da cidade pelos rumores de que havia uma epidemia de malária, tifo e outras doenças que atingiram os trabalhadores da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba.

 

       

Estrada de Ferro do Parana, Tunel n. 9 – Paranaguá-Curitiba

“Acervo da Casa da Memória / Diretoria do Patrimonio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba”, Coleção/Fundo Casa da Memória

 

           Quando chegou em Curitiba, a família de Belem foi diretamente para a região que foi denominada mais tarde de Santa Felicidade, onde se encontraram com outros imigrantes italianos vindos em outras embarcações e que desceram nos portos de Santos ou Rio de Janeiro. Na capital, os avós de Belem também souberam da história da senhora chamada Felicidade¹ e da venda bem facilitada de terras para imigrantes e adquiriram um terreno. Ele ainda confirma a história da doação do terreno para a construção da igreja que se chamaria Santa Felicidade em homenagem à benfeitora.

¹ A Sra. Felicidade já foi citada em depoimentos anteriores.

 

Aprendizado da língua portuguesa

 

            Segundo Belem, os imigrantes tiveram de passar por dois tipos de adaptação de linguagem e comunicação. O primeiro foi entre os próprios italianos que falavam o dialeto de Vêneto e os demais imigrantes que falavam italiano e outros dialetos, o que gerava alguns conflitos. Depois, a adaptação propriamente dita com os brasileiros, pois apesar de semelhantes, as línguas são bem diferentes.

            Os avós e tios de Belem trabalharam na construção civil. A princípio, o convívio diário com os brasileiros foi muito difícil, mas foi dessa maneira que forçosamente foram aprendendo o idioma. Já sua mãe, apesar de já nascida no Brasil, praticamente só falava o dialeto. No trabalho, também tinha dificuldades na comunicação com os brasileiros, tanto em entender como em se fazer entender, pois falava alguma coisa em português mas misturava as frases com palavras do dialeto.

 

Preservação da cultura

 

            Uma das ações realizadas pelos descendentes dos imigrantes italianos para a preservação da cultura são as atividades desenvolvidas pelo Coral Folclórico Italiano, que mantém as tradições musicais originais da Itália. Em ocasiões especiais, o coral acompanha a missa e canta em latim. O grupo é composto em sua maioria por descendentes de segunda geração de imigrantes e todos integrantes falam o dialeto de Vêneto. Existe um trabalho de incentivo para que mais jovens apreciem também as atividades do coral e dele participem.

 

            Alexandro Sandro Túlio e Jéssica Rebert Túlio, filho e neta de Belem são, respectivamente, presidente e diretora cultural do grupo folclórico. Eles empreendem incansáveis esforços no sentido de difundir as atividades por meio de apresentações em várias regiões do Paraná e outros estados brasileiros. Já conseguiram gravar dois CDs com os apoios do governo, empresários e da comunidade.

            Com muito orgulho, a esposa do Belem, a “Nona” Anita, mostrou o passo a passo da preparação de um delicioso banquete a base de frango, polenta e radite, comida típica italiana, prato que foi agregado ao cardápio dos brasileiros em geral.

 

Belem e Anita Túlio

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Foto de Fernando Santos

 

Sotaque curitibano

 

            Belem e sua esposa (descendentes de terceira geração de imigrantes) e seu filho ainda demonstram, no modo de falar e se expressar, resquícios do sotaque estrangeiro. Já os netos, além de não apresentar o sotaque italiano, falam com sotaque da região de Curitiba e usam expressões populares e/ou gírias tipicamente curitibanas.

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